terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

AS CARDOSAS E AS CARRANCAS DO SENHOR ONÉSIO, EM BURITI DE INÁCIA VAZ

 As famílias deles sobreviveram ao boom da soja no Baixo Parnaiba maranhense e, no dia 19 de fevereiro de 2011, eles se sentaram na varanda da casa da dona Cardosa para agruparem suas áreas de Chapada em torno de um projeto de gestão ambiental do rio Preto na comunidade das Carrancas, município de Buriti de Inácia Vaz.

Defendeu-se o título “Carrancas do senhor Onésio” para o projeto como forma de homenagear o senhor Onésio, herdeiro de sua avó em uma parcela da Chapada por onde se assomam milhares de bacurizeiros.

Segundo o senhor Onésio, o verdadeiro nome da comunidade é Valência. Carrancas é o antigo nome e assim se denominava por conta do aspecto carrancudo ou então sombreado que se conferia à Chapada antes da chegada dos “gaúchos”.

As Cardosas – assim o senhor Onésio exclamava o nome das parentas da sua esposa e que batalharam e que batalham para segurar mais de cem hectares de Chapada manchados por bacurizeiros de toda ordem gráfica. Os bacurizeiros grafam os céus com seus galhos e seus troncos que assumem formas de uma natureza indecifrável e impressionante.

As Cardosas são as proprietárias puros-sangues de uma linhagem que ainda não se evaporou nas Carrancas. Elas se sentam como se sentavam suas mães e suas avós: cercadas pelos filhos e pelos netos nos quais se apegam com todo grão de arroz que plantaram em suas roças ou com toda a polpa de bacuri que cortaram do caroço.

Os mais velhos argüiam sobre o projeto e a mais nova das Cardosas desvelava as polpas dos bacuris em uma pequena bacia. Ela conduzia a tesoura por cada bacuri como uma costureira faz em um tecido para encontrar o desenho pretendido que servisse tanto para o gosto do cliente como para o seu gosto. Na polpa do bacuri se encontram ao mesmo tempo o tato do extrativista com o paladar do consumidor.

Por mais estranho que possa parecer, o senhor Onésio, um sujeito beirando seus oitenta anos, que nasceu e que se criou nas Carrancas, acudia os bacuris nas Chapadas alheias porque simplesmente ignorava os seus direitos de herdeiro sobre os mais de 160 hectares deixados pela sua avó falecida.

A ignorância vela pelos vivos em quaisquer recintos e em quaisquer circunstâncias no qual se encontrem. Por isso, os dez anos para trás, de onde o senhor Onésio partiu para chegar ao atual patamar em que sua área se mantém como uma das poucas áreas de todo município de Buriti de Inácia Vaz que não foram vendidas para os plantadores de soja e nem devastadas por eles, cravam uma dolorosa lição: o declínio da monocultura da soja e o declínio da agricultura familiar se aproximam em Buriti de Inácia Vaz e em outros municípios do Baixo Parnaiba maranhense quanto mais agricultores familiares venderem suas derradeiras posses.      

Mayron Régis do Blog Territórios Livres do Baixo Parnaíba

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