domingo, 3 de abril de 2011

DUAS MENTIRAS HISTÓRICAS

João Mendonça Cordeiro*

 O Maranhão, mais uma vez, se afirma e confirma como Terra da Mentira, conforme pregava o grande orador sacro, Padre Antônio Vieira que aqui viveu e durante anos lutou em favor da verdade absoluta de Deus e relativa dos homens.
 As duas mentiras históricas, perpetradas em escritos sobre São Luís e o Maranhão e repetidas continuamente em livros, na imprensa e em outros meios de comunicação de massa, referem-se à fundação da cidade de São Luís pelos franceses, em 8 de setembro de 1612 e o Impeachment do Governador Aquiles de Faria Lisboa, em 2 de julho de 1936.
 Durante três séculos, de 1612 a 1912, nenhum historiador português ou brasileiro considerou como francesa a fundação de São Luís.
Assim, Diogo de Campos Moreno, que, em Jornada do Maranhão, descreve, com pormenores, as batalhas dos portugueses contra os invasores franceses, os seus locais de lutas, inclusive na Ilha do Maranhão, não considera, em qualquer momento, como indícios e/ou inícios da edificação de uma cidade, sede da França Equinocial, os raros pontos da construção frágil, com paus e pindobas, de forte e casebres.
O conceituado historiador João Francisco Lisboa, em Apontamentos, Notícias e Observações para a História do Maranhão, limita-se a comentar a invasão francesa.
Mas Bernardo Pereira de Berredo, em Anais Históricos do Estado do Maranhão, publicados em 1749, informa: “Logo que o General Alexandre de Moura saiu da Baía do Maranhão, aplicou Jerônimo de Albuquerque o principal cuidado à útil fundação de uma cidade naquele mesmo sítio, obra de que também se achava encarregado por disposições da Corte de Madri (...) dentro de pouco tempo adiantou tanto a povoação (...), lhe declarou a invocação de São Luís; ou fosse porque estando tão conhecida já aquela ilha pela natural participação da sua fortaleza, se não atreveu a confundir-lhe o nome com a mudança dele; ou porque quis na conservação desta memória segurar melhor a sua nas recomendações da posteridade”.
Raimundo José de Sousa Gaioso, em Compêndio histórico-político dos princípios da lavoura do Maranhão, publicado em 1818 afirma: ”Sossegado Jerônimo de Albuquerque na força de seus trabalhos com a fundação da cidade do Maranhão, de que tomou o apelido” e “Livre o Maranhão naquele dia de toda a sujeição francesa, aplicou Jerônimo de Albuquerque todo cuidado na fundação de uma cidade naquele mesmo sítio; Barbosa de Godóis, em História do Maranhão para uso dos alunos da Escola Normal, 1904, confirma: “de posse do Governo do Maranhão, Jerônimo de Albuquerque, cumprindo as ordens que recebera da Corte de Madrid,tratou com solicitude da fundação da cidade,dando o nome de São Luís”. César Marques, em seu indispensável Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão,também registra: “Jerônimo de Albuquerque volveu suas vistas para a fundação e edificação da capital,dando-lhe nova forma e ordem,como tudo lhe foi ordenado pela Corte de Madri”.
Frei Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres, em Poranduba Maranhense, escrito em 1819 comenta: “Jerônimo de Albuquerque fundou, logo junto à fortaleza de São Luís uma cidade (debaixo da proteção de Maria Santíssima com o título de Vitória que já lhe tinha decretado em Guaxenduba) com a invocação de São Luís e a fortaleza deste nome teve por diante o de São Felipe”.
O padre jesuíta João Felipe Bettendorff, reportando-se ao livro do capuchinho Cláudio d’Abbeville, acrescenta: “para, pois, dar alguma breve notícia dela (Ilha do Maranhão) digo com o dito autor e pelo que consta por ter morado nela muitos anos, que é a que depois de expulsados os franceses, se edificou a Cidade de São Luís, cabeça de todo o Estado do Maranhão”.
A historiadora ludovicense, professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix, com seus livros: A Fundação Francesa de São Luís e seus Mitos e Jerônimo de Albuquerque, vem lutando, parece que em vão, em favor da verdade histórica da fundação não francesa da cidade de São Luís do Maranhão, pois tanto a administração estadual como a municipal prometem obras e comemorações para 2012 e são lançados concursos literários e escritos em jornais sobre os quatrocentos anos da cidade.
Anteriormente, o professor e antropólogo Olavo Correia Lima, em artigo publicado na Revista nº 16, de 1993, do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, já contradizia com argumentos científicos o mito dessa fundação francesa, defendendo a verdade histórica de que a cidade foi fundada “pelo grande mameluco pernambucano, Jerônimo de Albuquerque, em 27 de novembro de 1614,data de assinatura do armistício” com os invasores franceses, derrotados na Batalha de Guaxenduba.
O documento apresentado como prova da fundação francesa da cidade de São Luís, “la petite ville”, capítulo XIII,sob o título: De como se plantou a cruz no Maranhão e foi a terra benzida - do livro: História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas – do frade capuchinho, testemunha pessoal e fidedigna, Cláudio d’Abbeville, descreve,minuciosamente, as solenidades de 8 de setembro de 1612.
O livro do frei Cláudio d’Abbeville é o único que registra esse acontecimento, pois a obra de outro capuchinho, frei Ivo D’Evreux: Viagem ao norte do Brasil, feita nos anos de 1613 a 1614, relata, portanto, fatos posteriores a 1612. O citado capítulo compõe-se de doze parágrafos assim distribuídos:
1º: sermão aos índios: para serem católicos, apostólicos,romanos, deveriam “chantar e arvorar em triunfo o estandarte da Santa Cruz”;
2º: Deliberaram reunir-se em 8 de setembro, dia da Natividade da Santíssima e Imaculada Virgem Maria.Da missa na capela, saíram em procissão até o forte;
3º: fidalgos levavam água benta, incenso e turíbulo e gentil-homem carregava belíssimo crucifixo. Dois jovens índios, filhos do principal da Ilha, conduziam dos lados da Cruz, dois castiçais com círios acesos. Religiosos de sobrepelizes brancas, nobres, plebeus e índios acompanhavam o Senhor de Razilly, loco-tenente – general de Suas Majestades.
4º- Cantavam litanias à Virgem Maria, como na Ilha Pequena ou Santana. Junto ao Forte entoaram Te Deum Laudamus e outras orações.
5º:- Após o sermão, Des Vaux explicou aos índios que a colocação da Cruz era um testemunho da aliança firmada entre eles e Deus com a promessa de que abraçavam a religião cristã e renunciavam ao maldito Jurupari
6º: - Os índios, emocionados, asseguraram que voluntariamente aceitavam tudo quanto lhes fora proposto.
7º: - Benzida a Cruz, foi por todos adorada,ao som do cântico: Vexilla Regis Prodeunt, repetido o versículo: O Crux, ave spes única.
8º: - Os principais das Aldeias vestiam belos casacos azuis celeste, com cruzes brancas por diante e por trás, doados pelos locos-tenentes-generais e juntamente com os outros índios, anciãos e crianças, adoravam piedosamente a Santa Cruz.
9º:- Assim, fervorosamente, abraçavam a religião cristã.
10º:- Os índios levantaram e chantaram a Cruz, ao cântico de O Crux, ave spes unica, in hac triumphi gloria.
11º: - Dominava a alegria e felicidade de todos por se erguer e chantar a Santa Cruz, entre gentios e arraiais que se julgavam rebeldes às santas leis do cristianismo. “E isso se fez nesse dia notável na Ilha do Maranhão e com geral contentamento”
12º:- Erguida a cruz e benzida a Ilha, enquanto do forte e dos navios muitos canhonaços se disparavam em sinal de regozijo, o Sr. De Razilly deu ao forte o nome de São Luís, em memória eterna de Luis XIII; ao ancoradouro ou porto, junto ao forte,denominou de Santa Maria, em homenagem à Virgem Maria, cuja Natividade se comemorava naquela data.
Assim, as cerimônias realizadas em 8 de setembro de 1612- missa, procissão, colocação e adoração da Santa Cruz, - constituíram-se de pura liturgia católica, ao som de cânticos sacros. Não se revestiram de qualquer intenção política, muito menos de fundação de uma cidade, tanto que La Ravardière, considerado, séculos depois, como fundador da cidade, nessa data, nem ao menos participou dessas solenidades de catequese católica, por ser protestante.
O historiador Antônio Lopes, no artigo reproduzido em Estudos Diversos, sob o título Nossa Cidade, confirma como “religiosa” a cerimônia realizada em 8 de setembro, embora contraditoriamente aceite como data da fundação de São Luís.
Da malograda invasão francesa restou o traço cultural do nome da cidade = São Luís, em homenagem ao rei Luis XIII, mantido pelos portugueses,mas em honra ao santo Luís IX e existia, na época, o núcleo primitivo: forte de pau a pique, denominado, depois, São Felipe, uma capela e armazém,casebres, todos construídos de paus e pindobas e não de pedras ou tijolos, no promontório da atual Avenida Pedro II, convento e capela, próximos, localizados onde hoje se encontra o Colégio Santa Teresa e não no local distante, de acesso, então, quase impossível onde hoje existem a igreja e o seminário Santo Antônio, como provou o historiador Antônio Lopes em artigo publicado na Revista do IHGM, Ano II, nº1, novembro de l948,sob o título: A História de São Luís – Questões e Dúvidas – A residência dos capuchinhos franceses.
Por força da ideologia: conjunto de idéias determinantes de uma sociedade (Comte) ou superestrutura conceitual, produto necessário de uma infra-estrutura econômica (Marx), “atenienses”, alienados, em busca de um presente glorioso como fora no passado a Atenas Brasileira, dominados pelo galicismo, criaram, em 1912,o mito da fundação francesa da cidade de São Luís.
Trocaram o verdadeiro fundador, o mameluco brasileiro, pernambucano, produto de duas etnias que formaram o Brasil- portugueses e índios - Jerônimo de Albuquerque, herói da expulsão gaulesa, o qual acrescentou ao nome o cognome Maranhão de que tanto se orgulhava,por um pirata francês, La Ravardière, pusilânime, que embora dispusesse de imbatível poderio bélico constituído por navios, canoas, soldados bem treinados e alimentados e milhares de índios, foi vergonhosamente, por sua absoluta incapacidade, derrotado na misteriosa Batalha de Guaxenduba, por soldados portugueses, doentes e famintos e alguns índios.
Foram pioneiros dessa mentira histórica o professor e fundador da Academia Maranhense de Letras, José Ribeiro do Amaral, em Fundação do Maranhão, publicado em 1912 e Domingos Perdigão em discurso na abertura da Exposição comemorativa dos 300 anos da pretensa fundação da cidade de São Luís pelos invasores franceses.
Por determinação de Jerônimo de Albuquerque Maranhão, nomeado Capitão-Mor da Província, o Engenheiro-Mor do Reino, Francisco Frias de Mesquita providenciou a planta da cidade de São Luís (MA), partindo do núcleo primitivo francês, atual Avenida Pedro II, continuando pelo Largo do Carmo (Praça João Lisboa), estendendo-se as ruas estreitas, com quadras regulares, em direção à Madre Deus e outros bairros.
No momento, cabe ao Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), em seus gloriosos 85 anos de fundação e instalação, comemorados no final de 2010, como entidade científica e não apenas literária, poético-ficcionista, o qual empreendeu, no passado, campanhas vitoriosas como na definição dos limites do Maranhão, com o Pará (Gurupi), com o Piauí (Delta do Parnaíba) debater e defender a verdade histórica da fundação da cidade de São Luís.
A outra mentira histórica constitui o Impeachment do Governador Aquiles de Faria Lisboa, uma farsa jurídico-política, como já mostrei em artigo publicado em 2006, no ensejo das sete décadas desse acontecimento e será objeto de estudo mais longo e profundo no livro a ser publicado, em 2 de julho próximo,aos 75 anos desse embuste.

*Do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, cadeira 32, e da Academia Vianense de Letra, cadeira nº 4.

Fonte: JP

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