domingo, 10 de abril de 2011

IGOR LAGO FALA DA LUTA DO PAI CONTRA A DOENÇA, VEJA

As lembranças que sobraram de um pai morto, para o médico Igor Lago, filho do governador Jackson Lago, se misturam às memórias que ficaram de um líder que fez história na vida política do estado.  Foi no escritório que o pedetista passava boa parte do tempo enquanto estava em casa, - um apartamento discreto na Ponta D’areia -, que Igor Lago, em entrevista exclusiva a O Imparcial, falou sobre a luta do pai pela vida e os detalhes dos últimos momentos do pedetista, que mesmo sob o risco do câncer preferiu não abandonar a política e passou, discretamente, toda a campanha eleitoral de 2010 em quimioterapia para tratar da doença.

Tudo ainda estava do mesmo jeito de quando há pelo menos quatro meses, Jackson deixou São Luís para cuidar da saúde com mais dedicação, em São Paulo. Ele não poderia imaginar que não voltaria mais. Em tom saudosista, Igor relembra o último livro que o pai leu, o romance “Guerra do fim do mundo”, do escritor peruano Mario Vargas Llosa, o último programa de televisão que assistiu na companhia do pai, uma entrevista do jornalista Flávio Tavares, sobre Che Guevara, mas logo as boas lembranças se juntam àquelas que marcaram os últimos dias. Lago tomou morfina, acordou com insuficiência respiratória e morreu no leito do Hospital do Coração, sob os olhares da esposa, Clay Lago, dos três filhos e uma neta.

Deixou incompleta a leitura do livro de Moniz Bandeira, “Fórmula para o caos”, que narra a derrubada do governo de Salvador Allende via conspiração da inteligência americana com civis de direita e militares, junto a muitos outros livros nas prateleiras, cerca de quatro mini-bandeiras do Maranhão enfeitando a mesa e um envelope postal ainda não aberto. Talvez, se pudesse fazer da vida o que realizava na política, dono de uma capacidade de articulação e tática capaz de prever cenários, Jackson Lago teria dado tempo a despedidas.

O médico Igor Lago revela todos os passos do tratamento de Jackson Lago, a evolução da doença, as questões espinhosas que restaram na política após a morte do pai, sobretudo, quem o deve substituir. Hoje, com a missa de sétimo dia marcada para acontecer na capital e em Imperatriz, militantes e familiares de Jackson Lago fazem uma última homenagem.

A doença
“Papai descobriu que ele tinha câncer de próstata em 2004, vi noticiado dizendo que ele tinha descoberto em 1996, não foi. Nesse ano ele teve hiperplasia benigna na próstata, quando ela aumenta de tamanho e tira-se uma parte da próstata, mas ainda fica tecido lá. Ele fez nessa época uma cirurgia endoscópica, que não é invasiva.”, destaca Igor Lago demonstrando que é há pelo menos 14 anos que as questões relacionadas à saúde vinham preocupando o ex-governador.

Igor explica que logo após a descoberta da doença, Lago começou o tratamento fazendo sessões de radioterapia já no final de 2004. “Ele ficou bem, fazia controles periodicamente a cada seis meses. Mas em 2007, já governador descobriu que o problema tinha voltado de forma mais agressiva e foi então que fez a hormonioterapia”, lembra o médico. Já em 2010, Jackson Lago voltou a apresentar sinais de avanço da doença novamente e foi necessário começar além da hormonioterapia, o tratamento de quimioterapia oral. “Ele começou em fevereiro até outubro do ano passado. Ele, em plena campanha eleitoral, fazia o tratamento.”declarou Igor.

Mesmo doente, Jackson Lago fez política e não chegou a divulgar, em nenhum episódio da corrida pelo voto, que estava enfrentado uma etapa perigosa de sua doença.“É um tratamento que debilita a pessoa, mas ele conseguiu fazer a campanha, aos trancos e barrancos e infelizmente, pelas circunstâncias todas da campanha ele não teve o resultado que gostaria de ter.”, ponderou.

A apatia
Igor Lago é cardiologista e trabalha na área de hemodinâmica e apesar de, por circunstâncias da profissão, dividir a residência entre passar uma semana no Maranhão e três em Ribeirão Preto, o filho acompanhou todos os governos liderados por Jackson Lago e acredita que a saúde do pai foi bastante influenciada pelos acontecimentos políticos.

Igor conta que durante o tratamento de hormonioterapia, iniciado em 2007, Lago esteve abatido e apresentava um quadro depressivo. Para a família, a política, na vida do líder pedetista era escudo e lança. Ao passo que o fazia construir em si, um homem realizado por nela atuar, o deixava exposto para as quedas. “O resultado da campanha de 2010, a operação navalha, a cassação e as coisas que aconteceram na campanha tiveram uma influência sim no ânimo dele, na psicologia. A gente não tem como medir exatamente, mas que exerceram um tipo de influência não há dúvidas. A pessoa que tem câncer vive mais se estiver com alto astral, bom ânimo, estimulada, alegre, feliz.”avaliou Igor Lago.
A via crucis

Depois de enfrentar um embate eleitoral do qual Jackson Lago não esteve livre das metralhadoras verbais e dos tiros de canhão sobre sua imagem, Igor conta que o pedetista foi levado pela família a São Paulo para fazer revisão periódica de monitoramento da saúde. O médico avaliou que, naquelas circunstâncias, o remédio seria se distrair e optar pela injeção de ânimo “Em novembro, quando ele foi fazer revisão, o médico não achou necessidade de fazer quimioterapia e estimulou ele a viajar um pouco e ele então resolveu ir a Portugal, um lugar que ele gostava bastante pra ver se melhorava o ânimo, mas continuou com o mesmo estado de apatia, de tristeza”, lembra Igor.

O filho de Lago contou que após uma viagem, já no mês de dezembro do ano passado Jackson viveu a primeira das três internações antes da morte. “Ele teve quadro de inapetência, desidratação e precisou ficar internado. Nessa ocasião ele fez a primeira aplicação da quimio”, destacou.

Igor conta que Jackson Lago gostava de ler e pedia jornais nacionais e locais, por onde era possível acompanhar ao noticiário político. “Ele ficava acordado, mas o paciente com câncer dorme mais horas por dia”, Igor pontuou que já no final da doença, ele estava dormindo de dez a doze horas por dia. Para a família, os sinais de que Lago estava indo embora. “Ele passou a ler cada vez menos, a ver menos televisão, um dos últimos programas que ele viu foi  na Globo News, uma entrevista de Flávio Tavares, sobre Che Guevara”, conta, com saudades o filho.

A morte
Nos últimos dias, Jackson Lago apresentava insuficiência respiratória grave e dormia bastante, mas não ficava sedado, chegava a acordar lúcido e conversar. No dia da morte, a insuficiência respiratória estava preocupando ainda mais e Lago chegou a tomar morfina, mas com poucas horas ele apresentou uma parada cardíaca. Os filhos, a esposa e a neta Lara estavam no leito essa hora e viram tudo de perto. “Pelo quadro dele, de doença avançada, nesses casos os médicos não atuam na reanimação. A família acompanhou tudo isso, olhando. Eu, como médico já enfrentei muito isso, mas é uma sensação muito dolorosa que você se sente impotente.”declarou Igor Lago.

Kássia Brito do O Imparcial

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