terça-feira, 10 de abril de 2012

Esquerda européia diz "Há mudança no centro de gravidade do capitalismo"

Uma das mais respeitadas vozes da esquerda acadêmica europeia, o sociólogo sueco Göran Therborn (pronuncia-se Giorán Sebóun) está no Brasil para lançar seu livro Do Marxismo ao Pós-marxismo? (Boitempo, R$ 39).

A pergunta que norteia o livro não cansa de ser formulada desde a metade do século passado e adquiriu nova relevância nos anos 2000: o marxismo ainda tem atualidade?

Esse é o tema que Therborn abordará às 19h de quarta-feira, no Plenário Otávio Rocha da Câmara Municipal de Porto Alegre. Entre as análises de Therborn estão, por exemplo, as falhas que conduziram o socialismo soviético ao fracasso.

— A União Soviética foi ao mesmo tempo um farol de luz no mundo e uma casa de horror — declarou em entrevista a Zero Hora.

Confira a íntegra da entrevista:

Zero Hora — O futuro tem espaço para a esquerda?

Göran Therborn — Obviamente, pelo menos enquanto vivermos na modernidade e sob o capitalismo. A esquerda é um produto do Iluminismo radical e da Revolução Francesa, durante a qual a palavra adquiriu seu significado atual. Sentados à esquerda nas assembleias nacionais da Revolução estavam aqueles representantes que lutaram mais vigorosamente contra os privilégios reais, aristocráticos e capitalistas, contra o antissemitismo e a escravidão, pelos direitos e a liberdade das pessoas comuns. Exploração, humilhação, discriminação, polarização de privilégios e miséria sempre engendrarão resistência e forças de esquerda.

ZH — Os marxistas nos EUA e na Europa podem se rejubilar à medida que a crise econômica pós-2008 parece confirmar algumas das teses centrais da teoria marxista. A emergência de fortes economias capitalistas no Brasil, na Índia e (em certa medida) na China parece contradizer outras dessas teses. Estamos assistindo a um giro ao Sul na história do capitalismo?

Therborn — Há uma mudança histórica no centro de gravidade no capitalismo, e no poder político e cultural mundial, da área do Atlântico Norte para, em primeiro lugar, o leste e, possivelmente, o sul da Ásia. O Brasil está agora se aproximando da posição de grande poder que reivindicou em vão nos anos 1920, na época qualificada de ridícula por Churchill e outros imperialistas europeus. A primeira década deste século tem sido um período raro na história moderna, quando quase todo o Sul — com exceção de poucos países desastrosos — cresceu mais rapidamente que o Norte. Marx não previu isso, mas tampouco disse que seria impossível. Ao contrário, seu argumento geral era o de uma extensiva globalização do capitalismo e, em seu tempo, estava sempre procurando por mudanças nas relações internacionais de poder. A suposta impossibilidade de desenvolvimento capitalista na periferia dependente é uma tese pós-marxista. O retorno recorrente de crises econômicas como algo inerente ao capitalismo, por outro lado, encontra guarida em Marx.

ZH — Qual é o lugar da experiência da União Soviética e do Leste Europeu na história do socialismo internacional? De um ponto de vista socialista, houve um pecado original nessa experiência?

Therborn
— Para milhões de trabalhadores e povos pobres e colonizados ao redor do mundo, a União Soviética foi um farol de esperança, evidência material de que outro mundo era possível. Durante a Depressão dos anos 1930, quando havia desemprego em massa no mundo capitalista, quando o café brasileiro era queimado e o leite europeu era derramado para manter os preços em alta, a União Soviética lançou um enorme programa de desenvolvimento industrial. Essa transformação econômica e social também lançou as bases para a posterior derrota de Hitler e da Alemanha nazista pelos soviéticos. A União Soviética teve um significado histórico mundial, em grande medida moldando a história global do século 20. Preferindo uma expressão mais secular do que pecado original, creio que houve uma falha original. A Revolução Bolchevique foi realização de uma minoria revolucionária. E essa política de desenvolvimento moderno a partir de cima por uma vanguarda marcou a experiência soviética até o fim, até a década final de estagnação. Assim como de fato se ligou à tradição modernizadora tzarista desde Pedro, o Grande (começo do século 18), adotando igualmente formas tzaristas de repressão, como deportações e exílios para a Sibéria e, sob Stalin, nacionalismo e concepção de Estado tzarista de grande potência. O vanguardismo interno — com sua convicção modernista de saber o que o "progresso" e o "desenvolvimento" exigiam — em seguida intensificou, em vez de restringir, o louco terror stalinista dos anos 1930. Assim, a União Soviética foi ao mesmo tempo um farol de luz no mundo e uma casa de horror. No final de tudo, não se deve esquecer, ainda, que o comunismo soviético produziu um líder socialista democrático, Mikhail Gorbachev, mas no pântano social da inércia ossificada e da corrupção, de um lado, e dos ambiciosos nacionalistas e aspirantes a capitalistas, de outro, em que a União Soviética se tornou no final dos anos 1980, isso aconteceu muito tarde.

ZH — Há alguma passagem das obras de Marx que o senhor pudesse definir como inaceitável do ponto de vista ético e moral hoje?

Therborn — Marx estava muito fascinado pelo capitalismo global emergente para ter muita compreensão pelos valores existenciais da cultura de povos indígenas e colonizados. O sofrimento deles é algo que o Fórum Social Mundial e o Socialismo do Século 21 Andino colocaram em evidência.

ZH — Quais são os objetivos políticos dos que reclamam o legado de Marx?

Therborn — Organizar e apoiar a resistência à exploração capitalista, à brutalidade humana e às ameaças ao ambiente e lutar por possibilidades de uma vida boa para os 99% da população mundial. Essas são proposições marxistas clássicas, mas alcançá-las hoje requer novas análises e inovações criativas em matéria de organização e mobilização.

Com informações do Zero Hora

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