quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O Papa Francisco antecipa "reforma profunda" da Igreja católica, veja aqui

Papa Francisco e seus auxiliares

As visões de Francisco sobre o futuro do catolicismo, manifestadas em diferentes circunstâncias desde o início do papado, em março, ganharam contorno único no primeiro grande documento de sua autoria. A exortação apostólica Evangelii Gaudium (“A alegria do Evangelho”, em latim) reforçou a proposta de reforma da Igreja e conclamou os fiéis a combaterem a “globalização da indiferença”, além de insistir na necessidade de descentralização da Cúria Romana. Em sua mensagem, resultado do Sínodo dos Bispos (2012), o pontífice afirmou preferir ver a Igreja “arranhada, dolorida e suja por ter andado na rua a uma Igreja doente por se manter fechada em si mesma e agarrada à própria segurança”.

Para vaticanistas, o texto - apesar de construído a partir de ideias discutidas com bispos - reforça as propostas de mudanças sobre as quais o pontífice tem imprimido sua marca. Com 224 páginas, o documento é o mais abrangente assinado por Francisco. Em julho, o líder católico já tinha publicado uma encíclica, a Lumen fidei (“A luz da fé”), escrita a quatro mãos com o papa emérito, Bento XVI. Um dos pontos ressaltados por Francisco no recente documento é sobre a tomada de decisões colegiais. A descentralização do poder em Roma tem sido uma constante e norteou a decisão do papa de convocar oito cardeais de diferentes partes do mundo, o chamado G-8, para ajudá-lo na ampla reforma da Constituição do Vaticano. “Corresponde a mim, como bispo de Roma, estar aberto às sugestões que se orientem para um exercício de meu ministério, que o torne mais fiel ao sentido que Jesus Cristo quis dar a ele, e às necessidades atuais da evangelização”, escreveu o papa.

Francisco aborda questões polêmicas, como críticas ao mercado e ao sistema econômico que, na sua avaliação, é “injusto em suas raízes” e valoriza a “lei do mais forte”. Nesse mercado, segundo ele, imperam a “especulação financeira, uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta”, que sacrificam os excluídos. Como fez no passado, o papa denuncia a “globalização da indiferença” e o tráfico de seres humanos”. Em outro tema delicado, o aborto, legalizado em quase todos os países da Europa, o pontífice reconhece que “não se deve esperar que a Igreja mude sua postura, pois não é progressista resolver problemas eliminando uma vida humana”. Mas reconhece que “pouco fazemos para apoiar adequadamente as mulheres que se encontram em situações adversas, em que o aborto é apresentado a elas como uma solução rápida para sua angústia profunda”.

Carta de intenções
“O documento, de maneira geral, pode ser visto como uma carta de intenções para a reforma da Igreja”, opinou o historiador Rodrigo Coppe Caldeira, professor do Departamento de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). O professor explicou que a exortação marca o fim do Ano da Fé, aberto por Bento XVI, ano passado, com o objetivo de celebrar duas décadas do novo catecismo e meio século do Concílio Vaticano II. Na avaliação de Caldeira, a preocupação central é sobre como evangelizar hoje e se adaptar aos desafios do mundo atual.

Na opinião do diretor da Faculdade de Teologia da PUC-SP, Valeriano Sanots Costa, Francisco traça uma linha muito clara sobre suas visões a respeito da Igreja. “Me faz pensar, realmente, que é um novo tempo para a Igreja, seja na linha da evangelização, seja na linha de todas as reformas que ela tem de fazer para estar mais envolvida em todas as questões do mundo de hoje”, avaliou. Os especialistas avaliaram que o documento, mais próximo de uma plataforma oficial do papado, pode dar o tom de uma aguardada encíclica de Francisco.

“Uma encíclica é um documento no qual o papa pondera os valores, com um peso muito grande, que tem de ser acolhido e ponto final. A exortação é uma espécie de apelo e, geralmente, ele faz isso com outros bispos”, explicou Costa. 

Do Imparcial

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