quinta-feira, 3 de julho de 2014

José Sarney: Um ‘camaleão’ sempre próximo do poder, disse O Globo

Afago. José Sarney beija mão da então ministra Dilma, no governo Lula – Agência O Globo / Roberto Stuckert Filho/12-10-2010

A facilidade com que muda de matizes e se adapta a novas correntes ideológicas para manter a hegemonia de seu grupo político no poder deu a José Sarney o apelido de “camaleão”. No comando de uma das mais poderosas oligarquias que sobrevive no Brasil, o maranhense José Ribamar Ferreira Araújo da Costa Sarney sempre tirou proveito de todas as benesses do poder, transitando do regime militar ao governo popular dos petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Na política desde 1954, Sarney passou pelo antigo PSD, por UDN, Arena, PDS e PMDB; foi deputado duas vezes, senador três, governador, presidente da República: o filho, Zequinha Sarney, é deputado pelo PV, e a filha, Roseana Sarney, governadora do Maranhão. Mas o clã, segundo seus adversários, que não são poucos, governa para poucos: o Maranhão tem o segundo menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Em seis décadas no centro do poder em Brasília, Maranhão e, desde 1990, no Amapá, para onde transferiu seu título e se elegeu senador três vezes, o imortal da Academia Brasileira de Letras sempre renega suas raízes e ligações com o golpe de 1964, que apoiou e aderiu, com a Arena e o PDS. A partir de 1985, com a abertura democrática e a ascensão à Presidência da República, com a morte prematura do presidente eleito Tancredo Neves, quis forjar para si a imagem do democrata. Gosta de se comparar a Rui Barbosa, um dos políticos brasileiros de vida mais longa, como ele.

Sarney nasceu dentro do grupo político de outra oligarquia maranhense, de Vitorino Freire. A partir do golpe de 1964 (já fora do PSD e da UDN), criou seu próprio grupo, como aliado das Forças Armadas. Com o bipartidarismo, seu grupo obteve hegemonia na Arena e, depois, no PDS, pilares do regime militar. Veio a abertura democrática, mas, com a derrota das Diretas Já, em 1984, mudou-se para o PMDB para ser o vice de Tancredo, que derrotou Paulo Maluf, do PDS, no Colégio Eleitoral. Já presidente, apoiou a realização da Constituinte, na qual aumentou seu mandato para cinco anos.

O fim do seu mandato foi melancólico. Na biografia autorizada, de autoria da jornalista Regina Echeverria, Sarney se revela uma pessoa atormentada pela depressão crônica: considera que foi um presidente fraco, que fez um governo marcado por erros e fracassos, e que, na maioria do tempo, não sabia o que estava se passando. A maior fonte de pesquisa de Regina foi o diário em que Sarney faz suas catarses.

Em depoimentos na primeira pessoa, ele relembra que entrou em pânico quando foi informado de que assumiria a Presidência no lugar de Tancredo, em 1985. Sabia que não tinha legitimidade política, sequer tinha sido consultado sobre o Ministério que Tancredo anunciara na véspera de ser internado.

O que mais crescia era a depressão, doença que Sarney tentava dominar desde 1982 e era mantida em segredo. “Era uma solidão que não passava, uma dor insidiosa na alma que me levava a pensar recorrentemente na morte e nas fontes da vida”, diz na biografia.

Com sustentação política frágil, o grande fiador de seu mandato era o presidente da Câmara e da Constituinte, Ulysses Guimarães, também presidente do PMDB. Em seu diário, pouco antes de entregar o governo a Fernando Collor, Sarney fez um desabafo contra Ulysses: “Não tem grandeza nem espírito público. É o responsável pela situação que vivemos”.

Aprovados os cinco anos de mandato, a primeira eleição direta para presidente ocorreu em outubro de 1989. Sarney foi atacado pelos 21 candidatos. Apesar de ter se reconciliado com todos os inimigos, Sarney, em sua biografia, pesou a pena nos escritos sobre Lula também. Disse que em 1989, votou em branco no segundo turno entre Collor e o petista. Collor, porque “era um capitalista de Arapiraca”. Lula, porque era “a velharia ideológica, um marxista caribenho sem ideias próprias e sem base filosófica”.

Foi eleito senador pelo Amapá três vezes. Sobre a crise no Senado em 2009 (atos secretos e nepotismo), após assumir mais uma vez o comando da Casa, apresentou sua versão dos fatos. Quanto às centenas de atos secretos, muitos editados com nomeações de parentes, diz no livro: “Fui alvo de uma grande injustiça”.

Por Maria Lima – O Globo

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