domingo, 11 de junho de 2017

Ion Andrade: a anatomia do Golpe e a fisiologia de um desastre

No golpe os fisiológicos queriam Impunidade e os ideológicos as Reformas: os primeiros serão presos. Por que ainda defendem Reformas que não somente não sobreviverão ao tempo como acentuarão a sua condição de bandidos?

A abordagem do golpe como à de um acidente aéreo, ideia apresentada nalgum post desse mês, que infelizmente não encontrei de novo para citar, embora alegórica, pois o golpe foi uma trama, permite visão de conjunto e da relação (ou não) entre si das múltiplas causas que o produziram. Permite também entendê-lo de forma mais aprofundada com vistas a evitar, ainda que num futuro distante, que se repita, interrompendo o processo democrático novamente. O golpe não foi acidental. Foi proposital. Mas poderia não estivessem reunidas todas as circunstâncias sombrias que o acompanharam, não ter tido êxito.

Sem querer ser exaustivo vou alinhar de forma muito simplificada um encadeamento de interesses que finalmente resultaram no golpe e fazer um balanço do cenário atual, onde os diversos que compõem o golpismo, perderam o controle da situação.

I Forças Políticas

O golpismo Tucano/midiático pós eleitoral

Em primeiro lugar, precedendo a eleição de Dilma para o segundo mandato, o país foi mergulhado num clima anormal de ódios figadais patrocinados pela mídia. Esses ódios decorrentes do conflito com um Executivo que começava a enfrentá-la eram a própria natureza da campanha de Aécio Neves. Ao ser derrotado, esse conglomerado de interesses começa a planejar a derrubada do governo e a sua imobilidade. O julgamento no TSE da chapa Dilma/Temer é apenas o encerramento do plano “B” do golpismo tornado desnecessário, já que o plano A, a cassação pelo Congresso, teve sucesso.

O golpismo de Jucá vazado em alto e bom som

Mas por que esse plano “A” teve sucesso? Porque a República passou a ser conduzida pelas maquinações de Romero Jucá de acabar com a Lava Jato, para que os senadores e deputados implicados em ilícitos e investigados pudessem novamente dormir em paz. Para isso precisavam contar com um Executivo comprometido em barrar as investigações e com um legislativo capaz de mudar algumas leis que os tornassem menos vulneráveis a essa investida (heterodoxa) do Judiciário.

O fator Eduardo Cunha

A escolha de Eduardo Cunha como presidente da Câmara ocorreu ainda no processo eleitoral de 2014 e não na Câmara, onde apenas foi homologado. O propósito de elegê-lo presidente daquela casa foi o de inviabilizar e derrubar o governo Dilma, mas sozinho, provavelmente não teria tido fôlego para viabilizar a derrubada da presidenta com tantos votos.

II O Capital

O fator FIESP

Submetido politicamente pela proposta de um Estado Social que vinha dando certo mas que mergulhara numa crise econômica acentuada, o empresariado paulista não teve dificuldades em aderir ao alinhamento proposto pela FIESP à ideia da Restauração neoliberal que enxergaram, num erro estratégico extraordinário, como o remédio para voltar a prosperar. Esse componente acrescentou dois elementos ao golpe: (a) o argumento que faltava aos deputados mais recalcitrantes, seja por fisiologismo, seja por convicções menos golpistas e (b) o conteúdo ideológico do golpe: o ideário de reformas feitas sob medida para arruinar as conquistas trabalhistas. Tal qual canto de sereia o neoliberalismo vem produzindo uma redução acentuada do mercado consumidor com reflexos pesados sobre a indústria já havendo empresários que começam a suspeitar que foram enganados...

Interesses externos

Acuados pelas inciativas consistentes dos BRICs rumo à consolidação de um mundo multipolar, em boa parte decorrente de um protagonismo brasileiro que produzia inclusive afastamento da América Latina do eixo americano e ávidos pelas riquezas brasileiras, com destaque para o petróleo do pré-sal, o capital internacional foi componente de primeira hora da frente golpista, juntamente com os Tucanos e com a mídia. Esse componente também agregou exigências ideológicas e econômicas ao seu apoio, o que pode ser constatado pelo desmonte da indústria naval, da indústria de defesa, da engenharia pesada nacional, da redução do conteúdo nacional na cadeia do petróleo, da oferta da base de Alcântara aos interesses externos, etc.

III Fatores coadjuvantes

A Lava Jato

Nada ingênua nesse cenário, a operação centrou-se nos governos Lula e Dilma e poupou os governos tucanos anteriores a Lula assim como poupou os governos tucanos de estados chave como o de Minas antes de Pimentel ou o de São Paulo que também tinham contratos volumosos com as empresas investigadas pela Lava Jato e um rosário de delações e denúncias. Conexões com interesses externos foram mais de uma vez suspeitadas pelos efeitos da operação em áreas estratégicas para a soberania nacional produzidas não pela investigação de corrupção, afinal algo necessário, mas pelo método de expor e demonizar empresas e ativos brasileiros à sanha dos concorrentes internacionais em toda parte. Até os dias de hoje, apesar de suspeitas que vão de assassinatos ao tráfico de drogas, não há nenhum tucano preso pela operação.

A rua golpista

Formada por setores provenientes da classe média, a rua golpista foi crucial para o golpe. Movida por uma ética e uma estética classista, profundamente anti-popular, essa multidão já descobriu que é parte perdedora no golpe e não somente desocupou as ruas como vem progressivamente se posicionando em oposição.

IV Exaustão

A atonia do governo Dilma e o erro estratégico da adesão ao neoliberalismo com Levy

A inação do governo foi obviamente um dos mais importantes fatores para o êxito do golpe. Figuras como a de José Eduardo Cardozo como Ministro da Justiça, dentre outros cuja lembrança é desnecessária, serão de difícil compreensão para os historiadores desse triste momento por ser incompreensível que tenham permanecido no governo num mar de tempestades como o que atravessávamos. Ao mesmo tempo a desastrosa adesão ao neoliberalismo com Joaquim Levy pelo governo Dilma agravou a crise econômica, pois gasolina pudesse não apaga fogo.

A dessintonia do governo com as aspirações populares

Lula conseguiu interpretar as necessidades mais urgentes do nosso povo e convertê-las em objeto de políticas públicas. Porém essas políticas que foram capazes de produzir uma verdadeira revolução no Brasil já não eram mais suficientes no governo Dilma, que também não conseguiu identificar as novas necessidades a atingir. O Mais Médicos por exemplo foi uma iniciativa tardia de, às cegas, tentar acertar o alvo. Sobre esse ponto remeto os interessados ao artigo “Podemos fazer mais?” que publiquei na semana passada.

Conclusões

Então, a dinâmica do golpe incorporou uma conspiração prévia que elegeu Eduardo Cunha à qual se agregou um golpismo pós-eleitoral de primeira hora, (o PSDB, a mídia, o capital nacional e o internacional) componentes ideológicos e ativos portador deum ideário de Reformas que quer salvar. Incorporou em seguida um golpismo animado pelo pavor à Lava Jato, ávido por auto-proteção (a profecia de Jucá) passivo quanto ao projeto de sociedade e fisiológico. Esse golpismo vendeu a alma ao outro, incorporando as reformas no projeto Pinguela dos Desvalidos com a garantia de proteção na mídia e impunidade na Lava Jato. Funcionaram como fatores convergentes: (a) a Lava Jato, que aberta e ostensivamente poupou e continua poupando o PSDB e (b) a rua golpista. Por seu turno, o governo Dilma mostrou-se: (a) passivo na política de sua auto-defesa, (b) neoliberal na condução da política econômica e (c) dessintonizado das necessidades e aspirações das maiorias.

Feito esse balanço, podemos constatar que, apesar de terem conseguido derrubar o governo Dilma, nem tudo deu certo para os golpistas. Fiel à sua enraizada ideologia elitista, a rua golpista descolou-se dos grandes partidos e passou a compor a base eleitoral da extrema direita. Apesar de fazer água por todos os lados, os componentes fisiológicos que acompanharam a estratégia Jucá são os que hoje conduzem o golpe, o que leva o componente ideológico e entreguista a pretender salvar as Reformas e lançar Temer aos leões. Esse porém é o cenário da debâcle  e, ao fim e ao cabo, põe em risco o conjunto da peça golpista.

De fato, esse mar de lama dá às Reformas e PECs tanta ilegitimidade, que a sua aprovação pelo Congresso atual, repleto de uma maioria de corruptos, não reúne as condições mínimas de consenso para sobreviver ao tempo. As Reformas e PECs sofrerão forte pressão para a sua revogação assim que a normalidade democrática ressurja. E bastará um plebiscito.

No campo da política, assimilados os golpistas ideológicos e fisiológicos  a ladrões, emergem como forças sobreviventes a esquerda democrática e a extrema direita fascista.

Nesse contexto, a pergunta que Temer e Jucá têm que responder hoje é: Se a mídia e o grande capital lhes vendeu impunidade ante a Lava Jato como contrapartida às Reformas e os traiu, por que continuar fiel as Reformas?

Do GGN

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