sexta-feira, 2 de junho de 2017

Urariano Mota, O amor antes do ponto

Há quem pense que a carência de tudo era a causa “determinante”, para usar uma palavra das discussões da época, a causa fundamental para o que amávamos então. Assim como a economia determinava a história, a política, a sociedade, enfim, todo o universo material e espiritual, porque assim nos teria ensinado Marx – e sempre conforme o jargão simplificador das nossas encarniçadas discussões -, assim também a nossa carência de afeto seria a essência do que amávamos. Quando ouvíamos Tenderly com Ella Fitzgerald, ou os agudos do pistom de Louis Armstrong, quando ali nos encantávamos com a música, que nos deixava como almas penadas de carinho a flutuar, isso devia ser consequência do determinante, o coração que era só fome. Escapava de nós, digamos, a dialética do subjetivo e do objeto, para usar uma categoria mais filosófica. Mas não. Penso que o surgimento de Eva estava além dos argumentos da simplificação e do sofisticado. Stars fell on Alabama, penso, cantava na surdina. Desde a primeira noite, quando não foi possível tê-la plena, naquela agonia em pé, encostado à parede de tabique. Amor apressado, veloz, porque lá fora me esperava para ter uma dormida Olavo Carijó. Maldito. Por que sempre haverá um dever na hora da mais sublime felicidade? É como uma punição, um freio ou uma interdição dos poderes ocultos do sagrado evangelho, de Deus, não se poder abandonar ao prazer, ao amor livre e liberado. É como se não pudesse haver um justo e honrado momento em nossas vidas para um Summertime. Numa manhã, acordar cantando e abrir as asas, voar pelo céu, mas até essa manhã não há nada que possa nos ferir, será? Ainda assim, naqueles minutos concedidos pela carência, guardo a sua delicadeza e graça ao tocar a porta do quarto onde eu ainda estava sozinho. Tocou a porta, que cedeu. Não julgava que ela viesse, não acreditava que o convite feito numa voz cheia da coragem dos bêbados, falada entredentes na pia do corredor, “deixo a porta encostada”, numa ousadia que não sei onde fui buscar, mas sei, foi a ousadia da necessidade, eu duvidava que ela aceitasse o convite feito sem as flores da corte cavalheiresca. Gutural, com a falta de educação dos brutos: “deixo a porta encostada”. Apesar disso, ela acedeu, acendeu e ascendeu para mim.

Quando a porta se abriu, Eva apareceu com a camisola rósea. Uma camisola rósea, eu vi, que me pareceu ter o melhor gosto da noite, e nela estava a mulher de rosto redondo, suave, cabelos claros, e um sorriso entre quem se desculpa e se doa. Se eu fosse um homem livre, teria coberto o seu rosto e pescoço com uma torrente de beijos, como primeira bem-vinda. Na segunda, num espaço de minutos, teria descido para os seios, para o ventre, para o seu sexo úmido, que me prendia na mais feroz indecisão. Devia ir à sua boca de lábios superiores, no alto, ou saudá-la nos superiores da vulva? Se eu não fosse o escolhido para abrigar um companheiro perseguido, se eu fosse apenas um jovem livre e solto no mundo, sem referências, como um astronauta longe da Terra, no espaço das trevas, eu levaria a estrela para a minha cama, o ninho sobre o capim, e lá seríamos o melhor encontro de um jovem sozinho com o carinho da fêmea surgido.

É ocioso, além de triste, falar do que poderia ter sido ou feito na primeira noite. Chega a ser mórbido, de sabor meio amargo, falar das possibilidades que não se cumpriram. Então me dirijo ao próprio instante que foi e se foi, apesar do compromisso abaixo da escada, lá fora. Abstraio num esforço os impedimentos que pesavam sobre aqueles minutos. Tento abstrair, porque nos abraçamos em pé, nos abrasamos sem um instante de descanso, penetrei-a enquanto era penetrado pelo calor dos seios, da sua face, das suas coxas, que se levantavam para mim num esforço de operação acrobática. Aquela cena escandalosa do cinema em que um casal urra e resfolega alto, como se o amor precisasse de sonoplastia, não se deu. Houve uma devoração em silêncio. Com gestos sufocados, ou espasmos de pernas sem voz, numa compreensão mútua de que o instante único fosse o mais íntimo segredo. Naqueles minutos em pé, sentidos numa eternidade do tempo do incêndio, penso que tivemos a intuição de que a experiência era irrepetível. Penso também que o reflexo do raio, da luz de flash que ilumina o artilheiro no futebol na pequena área, e que ele não perde, nos tomou naquela noite. Diferente de quando tantas vezes somos acometidos por reflexos falhos, retardados, que para serem reflexos, por se deterem no exame do visto, perdem a sua oportunidade. Do gênero da moça que nos envia de repente um beijo antes de fechar o portão da sua casa, e de tanta surpresa, ao tentarmos responder já será tarde, porque ela fugiu, arrependida do impulso generoso. Assim como tantos carinhos súbitos, entrevistos na forma de bens repentinos, que nos alcançam, mas atentos à conveniência, aos reparos dos burros e malditos costumes, deles não tomamos posse. De tão fugazes, nem os detemos, porque não realizamos o breve na ocasião da brevidade, como um poema que não foi possível porque seria uma haicai, ali não. Aquela primeira noite com Eva, ao contrário de toda experiência, possuiu a felicidade, em sonho, do que nunca mais seria repetido. Creio ter ficado com cabelos seus em meu corpo e na boca. É claro, disso não tenho a consciência. No máximo, a intuição. No mínimo, a obediência à necessidade. E aqui a memória se confunde com outros encontros em seu caminho. Teriam sido os cabelos de Eva que perduraram em outras mulheres, como uma pista que nos acompanha, ou terão sido os seus que resistem na lembrança? 

O fato é que mais sobrevive e marca a gente o abrasar, os beijos, o seu rosto e cabelos, os seus lábios, o pescoço, os seios, a camisola que era só a cortina bela, transparente do palco. Aquela cor rosa, na luz frágil da lâmpada incandescente que deveria ser de 40 watts, dá a cor do ambiente do quarto, como se as paredes se cobrissem por ela. Eva, a sua camisola, em pé, com os olhos que choravam, descia para a melhor posição do coito. Naquela hora, não havia ainda a intimidade para que ela pegasse o meu sexo e melhor o dirigisse para dentro de si. Era como se ela o evitasse, santa entre as santas da delicadeza, ainda que o buscasse para melhor acomodação no seu íntimo. As suas bochechas eram um quadro ainda não pintado da madona. E se a memória filtra para o seu rosto, seios e pescoço, como se fosse anfíbia, sereia, é porque seleciona o mais agradável, que não era no instante o mais buscado, o fogo do vai e vem da penetração.  Por quê? Atento à hora do ponto com o companheiro lá embaixo, mas sem perder o momento tão raro, não houve a felicidade do que seria e deveria ser o clímax. O clímax foi antes, em mais de um sentido. Nos momentos que antecederam o chamado gozo seminal é que se deteve a felicidade. Depois, porque depois seria o cumprimento do dever, e se não o cumprisse não seria um homem, fugiu a alegria. Para ser homem no sentido moral, deixei de ser um, no sentido restrito de macho.

No entanto, o desastre que me dirigiu para o ponto com Olavo Carijó não destruiu a relação com Eva. Tanto no significado dos dias que se seguiram na pensão, quanto no da recordação. Aquilo foi bom, aquela primeira noite foi maravilhosa, eu a teria repetido, se pudesse, mesmo com o cumprimento do dever lá fora. Houve um encanto, um prazer que não cessa, que tem crescido porque ali houve uma ação que jamais seria repetida, ou seja, o encontro da necessidade com o seu impedimento. O limite, no limite do tempo mais precioso em que o jogador lampeja o gol e não o perde. O flash repentino em que se vislumbra o amor. E dele nos penetramos, numa ação rara de força e ousadia. Como negá-lo pela frustração do seu clímax? O ponto mais alto foi antes, como uma vida invertida em que o gozo da maturidade foi o choro do bebê. E por obediência ao gênero do que houve, fecho o capítulo antes do seu fim.  

*Do romance “A mais longa duração da juventude”. Link , AQUI.

Do GGN/Vermelho

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