sábado, 31 de agosto de 2013

“Carros brasileiros possuem estruturas frágeis”, diz especialista

Ver um carro se espatifar todo após uma batida é sempre chocante, mesmo quando o impacto é realizado em laboratório. Pior ainda se este modelo for um dos veículos mais populares do País. Em 2010, o Latin NCAP, organização que realiza crash-tests com veículos vendidos na América Latina, estreou com uma bateria de arrepiar (no mau sentido). Fiat Palio e Peugeot 207 “bombaram” no teste, obtendo apenas uma estrela em cinco.

A partir dalí a segurança dos carros comercializados no Brasil ficou em xeque. Novoss ensaios foram feitos em 2011, 2012 e este ano, com resultados surpreendentemente catastróficos. Na última edição, há poucos meses, Chevrolet Agile e Renault Clio zeraram a avaliação, ficando sem sequer uma estrela em cinco possíveis. O resultado, claro, deixou muitos consumidores brasileiros perplexos. Como pode um carro oferecer zero proteção?

Para encontrar respostas, o site R7 Carros entrevistou o engenheiro Alejandro Furas, diretor técnico dos testes de impacto do Latin NCAP. Sincero, Furas não poupou críticas especialmente aos veículos produzidos no Brasil, os quais o engenheiro uruguaio caracterizou frágeis por terem carrocerias construídas com materiais “de baixa qualidade”. Confira abaixo a entrevista completa com diretor técnico de testes do Latin NCAP.
Para Furas, equipar os carros com airbag não é o suficiente para proteger os seus ocupantes

As montadoras no Brasil afirmam que seus carros são seguros e seguem a lei do País. Mas testes realizados pela Latin NCAP revelaram o contrário. Qual o erro?
— Em primeiro lugar, é claro que os carros atendem às exigências do governo, caso contrário não poderiam ser comercializados. Mas isso não significa que ofereçam níveis satisfatórios de segurança. Depende muito de qual o nível de segurança que você considera “seguro”. Também depende das condições em que os testes são realizados.
Nossos testes de impacto ocorrem a 64 km/h. Há outros que atingem 56 km/h. De toda forma, em qualquer dos casos as velocidades não são tão altas — na verdade, são baixas em comparação com a velocidade de avenidas de várias cidades da América Latina. Por isso, entendemos que um carro que vai bem em nossos testes é seguro.

Você entrou no mérito da velocidade de ensaio do Latin NCAP. Nos primeiros testes houve críticas ao padrão adotado. O que pensa a respeito?
— Nossa velocidade de colisão é bem conhecida por todos os fabricantes, que podem atingir excelentes níveis de segurança sob esse mesmo teste em outros mercados com carros que são muito mais baratos e muito mais seguros do que aqueles que estão sendo oferecidos para os consumidores latino-americanos.
Sendo assim, uma ou zero estrelas indicam carros inseguros. O critério é o mesmo do Euro NCAP. Não devemos ser mais brandos que eles, porque os passageiros são igualmente humanos e enfrentam as mesmas leis da física em todo o mundo.

Você acredita que os carros brasileiros são frágeis por causa da estrutura do chassis? Ou seria por causa da falta de equipamentos de segurança?
— Ambos. O teste que realizamos não exige que o carro tenha airbags, como no Euro NCAP. Nós só exigimos que os ferimentos nos passageiros fiquem abaixo de um certo nível, não importa como o carro fique após a colisão. Descobrimos que os airbags estão em falta sim, mas também as estruturas são instáveis durante o ensaio. Há modelos que, mesmo com airbags, não protegem os passageiros adequadamente porque a estrutura é instável.
Essas estruturas mais frágeis usam materiais de baixa qualidade, têm menos pontos de solda e, em alguns casos, são carentes de reforços estruturais. E é muito difícil alterar ou corrigir quando o carro está em produção. Sendo assim, tanto a falta de aibags quanto as estruturas instáveis são um problema na maioria dos modelos testados.

A partir de janeiro de 2014, todos os veículos no Brasil serão obrigados a sair da fábrica com ABS e airbags frontais. É um passo importante, mas é suficiente?
— Não, não é suficiente. Como mencionei antes, com o fraco desempenho estrutural dos carros que testamos, os itens não serão suficiente. O melhor exemplo é o JAC J3 testado em 2012. Mesmo tendo airbags frontais, o modelo chinês só obteve uma estrela.

É possível aumentar o nível de segurança dos automóveis sem aumentar o custo de produção destes?
— Sim, absolutamente. Veja por exemplo o Etios. Trata-se de um carro compacto acessível que classificamos com quatro estrelas na segurança de ocupantes adultos. Se verificarmos os carros no mercado europeu, a maioria recebe cinco estrelas no Euro NCAP e custam menos de carros similares com níveis de segurança muito inferiores vendidos no Brasil.
O Ford Fiesta custa 9.000 Euros na Alemanha e ganhou cinco estrelas. Por que não podemos obter resultado semelhante com outro carro de mesmo preço na América Latina? São os impostos? Os fabricantes estão vendendo a preços muito caros? É evidente que no Brasil se paga muito mais caro por modelos com qualidade muito inferior.

Quanto tempo você acha que vai demorar para carros brasileiros e globais de baixo custo terem um nível satisfatório de segurança?
Vai levar o tempo que o governo determinar, exatamente como foi indicado por muitos fabricantes ao alegarem que “atendem o que é exigido “. Acredito que o governo dos países latinoamericanos aumentará as exigências, mas as montadoras não devem colocar pressão para atrasar a implementação desses regulamentos ou torná-los flexíveis e menos exigentes.

 Fonte: R7

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