sexta-feira, 19 de maio de 2017

O Rescaldo de um terremoto Político, por Luís Nassif

O ponto central do terremoto político é entender, na verdade, para onde a Rede Globo pretende ir, e o pescoço de Lula e Dilma deve ser a contrapartida dos grupos de mídias para endossar os crimes praticados pelo presidente e o senador Aécio Neves. 
Para entender as últimas horas da política brasileira, tornando o jogo político ainda mais complexo, vamos tentar compreender por que Michel Temer e Aécio Neves foram pegos. Em primeiro lugar se trata de uma iniciativa do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, levando o protagonismo político a sair dos movimentos minúsculos da Lava Jato, com os seus coordenadores querendo encontrar escândalos a partir de miudezas retiradas das delações declaratórias. 

Com isso, Janot conseguiu fazer as investigações políticas passarem para um jogo mais pesado. Houve uma armação em cima de Temer e Aécio, obviamente, ou seja, Joesley foi convencido a armar esse grampo pelo Procurador-Geral da República. 

O que leva Janot a esse movimento? Ele está em final de mandato, haviam todos os sinais de que Michel Temer não conduziria para a liderança da Procuradoria Geral alguém do seu grupo, isso porque o sistema de lista tríplice está ameaçado, e a Lava Jato entrando num descenso por conta dessa visão burocrática de apenas pegar um delator e recolher suas falas nos processos, ainda que sem provas. Essa iniciativa de Janot confere-lhe agora um protagonismo que ele não tinha até então. 

Foi uma operação bem-feita, tem o modelo daquelas que, em geral, a Polícia Federal e o Ministério Público armam para cima de traficantes. O delegado Protógenes Queiroz usou dessa mesma estratégia contra os representantes do banqueiro Daniel Dantas, na Operação Satiagraha, inclusive usando cobertura da Globo. 

Janot então, pega Aécio Neves, rompendo uma parceria mineira antiga, conferindo-lhe um grande grau de credibilidade e, amanhã, quando for o segundo tempo do jogo, certamente virá em cima de Lula e Dilma. 

Porém, mais importante é entender o que levou a rede Globo a endossar a tese do crime de Aécio. No primeiro dia ela foi apanhada de surpresa, com seus repórteres balbuciantes enquanto transmitiam as notícias, num alinhamento militar. Lembro o Nelson Rodrigues, lá atrás, quando estava começando a carreira de jornalista, e estava no Jornal da Tarde, e ele falava 'o único jornal que tem controle total sobre os seus jornalistas é o Globo'. E, de fato é uma ordem unida, pensada por um estrategista competente que é o Ali Kamel. 

Mas o que leva a Globo a endossar totalmente a tese dos crimes de Aécio e Temer? Tem a contrapartida que é você liquidar, principalmente, Lula e, nem tanto, Dilma, que está muito mais habilitada a algo como uma candidatura de deputada, embora ela tenha se tornado um símbolo político muito relevante pelo seu heroísmo no pós-impeachment e durante a campanha do impeachment. Então a destruição de Lula é a contrapartida. 

Por outro lado, com relação à estratégia de Janot, ele já vinha carregando muitas críticas sobre o modelo de trabalhos mal feitos por seu grupo, por exemplo, e que vinha desde Teori Zavasck, ex-relator do processo da Lava Jato no STF, morto em um acidente em janeiro. Com essa operação controlada ele recupera o protagonismo e coloca o grupo paranaense na sua verdadeira dimensão pequena e com um juiz extremamente parcial e cercado de holofotes.

Agora se começa uma discussão se a gravação, da conversa de Joesley com o Temer, não tem essa veracidade e o Temer agora reagindo, certamente orientado pelo ministro Gilmar Mendes. Entra ainda, o ministro Celso de Mello, fazendo um manifesto em favor da Constituição, legalidade e em prol do presidente, reforçando sua parcialidade em relação ao jogo político. Por que ele não fez a defesa da Constituição no período anterior, durante o julgamento de Dilma no Congresso? É essa parcialidade que desmoraliza o Supremo. 

Irmã de Aécio, Andréia Neves

Para a rede Globo jogar o Aécio ao mar não foi difícil, ele já estava naquilo que o mercado fala de 'realizar um prejuízo', ou seja, não tem mais esperança de recuperar o que eu investi naquela ação, então eu vendo pelo preço que vier. A pena é pela irmã, a jornalista Andrea Neves. Tem muitas críticas em relação à ela, sobre interferências nos jornais, mas ela é uma grande estrategista política. A grande vocação política da família Neves é ela, e não Aécio. 

Eu tive alguns contatos com ela, por volta de 2013. Nós pretendíamos, no GGN, fazer uma disputa entre propostas de governo, em áreas públicas. Durou pouco porque Andrea tinha que sair catando especialistas pois o PSDB deixou de ser um centro de pensamentos sistematizados.

Ela é uma figura singular, inclusive, quando teve o atentado do RioCentro [1981], Andrea foi a primeira pessoa que chegou ao local, no fusca onde a bomba explodiu no colo dos militares. O único problema era a maneira como protegia o irmão. Ela seria uma grande vocação política se não fosse esse patriarcado mineiro de achar que tem que ser homem o representante da família.

Sobre a forma como ela foi conduzida à prisão, me fez lembrar do sentimento de linchamento induzido na sociedade, que traz a tona o que de pior existe na natureza humana. Não sei o que há de mais animalesco, se o corrupto ou o linchador. Teve todo um show midiático de xingamentos, exposição da foto dela na delegacia, o processo comum de humilhação que vai em cima de todo o réu da Lava Jato. Não tiro com isso a sua culpa. Ela é a grande articuladora de Aécio. 

A gravidade das conversas entre Temer e Joesley

Outro ponto importante dos recentes acontecimentos políticos é a tentativa de minimizar as conversas do Joesley com Temer. Muita coisa realmente é prosa entre conhecidos, mas tem coisas sérias, de suborno a um procurador, a maneira como o empresário foi em cima de dois magistrados, o presidente ouvindo isso e segurando a informação. E, mais que isso, quando Temer indica esse Loures para ser o intermediário de Joesley e, segundo os dados - isso tem que ser apurado -, ele teria a comprovação de que o sujeito fez uma proposta de suborno, falando em nome de Temer. Isso não pode ser minimizado.

O que devemos separar nos próximos momentos, quando vier o rojão em cima de Lula e Dilma é: o que existe de provas? A prova é documental? São gravações? E o que existe de prova testemunhal? A questão é que, certamente, deve haver algo grave para a Globo ter endossado, inclusive hoje, pensadamente a campanha contra Temer, que foi jogado ao mar, efetivamente. 

Futuro das eleições - PSDB - Temer

Há muitas dúvidas, algumas delas tiramos hoje com o jurista Martonio Barreto Lima, da Universidade de Fortaleza, que ajudou a entender quem poderão ser os candidatos se ocorrer uma eleição direta. O PSDB é um partido sem rumo, quando começa o tiroteio, uma parte quer se retirar do governo, outra parte, como Aloísio Nunes, resolve ficar. Gilmar tenta minimizar o estrago. Assim, o PSDB se torna pior que Cristóvão Buarque, parlamentar que se tornou o rei do Twitter, onde colocou hoje o seguinte: O Temer disse que a imprensa está conspirando contra ele. Eu não acho que seja verdade. 

Veja também: O que acontece caso Temer renuncie? Aqui.

Não é achar se é verdade. Esse tipo de posiconamento se trata em uma tentativa do político de se equilibrar em dois pontos. Apostar no Temer hoje é um suicídio político, ele se tornou o sujeito mais detestado do país, e o PSDB não percebe. 

Fala-se muito dos coronéis nordestinos, Sarney, Renan, mas eles têm muito mais visão de país e dos procedimentos que tem que ser tomados que Temer. Ele deve ter construído sua imagem positiva em cima do Manual Constitucionalista que publicou e, segundo quem leu é uma coisa muito superficial, junto com seu jeito empolado de falar. Talvez também pelo círculo de amigos que se envolveu, de homens mais cultos. Mas a sua dimensão política é sofrível. É inacreditável como o PT apostou em uma mediocridade dessa como vice-presidente. Depois de tudo isso eu até duvido que ele tenha sido o articulador do Golpe, ele foi a reboque do sócio dele, Eduardo Cunha. 

Todo esse cenário mostra, de fundo, a falta de grandeza dos grupos que dirigem o país, cada qual pensando em seu próprio espaço. O preço do subdesenvolvimento é exatamente isso, a incapacidade de se ter homens públicos, entre as gerações mais novas, que coloquem os interesses do país acima dos interesses de grupo.

Do GGN

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