terça-feira, 23 de maio de 2017

Encurralado e no fim do mandato, Rodrigo Janot admite custos da Lava Jato e entrega seu protegido Aécio Neves como isca

Em guerra grande contra Michel Temer, o procurador-geral da República usa tardiamente cartas para serem sacrificadas: Aécio Neves. 
Foto: Lula Marques/ Fotos Públicas
"Quanto valeria para a sociedade saber que a principal alternativa presidencial de 2014, enquanto criticava a corrupção dos adversários, recebia propina do esquema que aparentava combater e ainda tramava na sorrelfa para inviabilizar as investigações?", disse Rodrigo Janot, o procurador-geral da República que detinha as primeiras acusações contra Aécio Neves (PSDB-MG) em mãos há dois anos e apenas agora colocou na roda da Lava Jato.

A frase de Janot foi publicada em artigo assinado propriamente por ele, no Uol, nesta terça-feira (23). O sacrifício de acusar publicamente Aécio carrega um contexto bem definido: o de faltar menos de um mês para a eleição dos procuradores da República a quem comandará a PGR. E, apesar de alguns nomes que figuram como oposição à sua conduta no Ministério Público Federal, o principal adversário é o presidente Michel Temer, que coloca em risco o reinado de Janot na Lava Jato.

"[A lista tríplice] tem sido respeitada nos últimos anos, mas não há nenhuma previsão constitucional que me obrigue a seguí-la", disse Temer, em abril deste ano, em tom intimidatório. A declaração foi aceita pelo procurador-geral como uma tomada para a guerra. 

Assim, introduziu Janot em sua bandeira de campanha na forma de "artigo crítico" que ele foi "procurado pelos irmãos Batista", que trouxeram afortunadamente "indícios consistentes de crimes em andamento – vou repetir: crimes graves em execução –, praticados em tese por um senador da República e por um deputado federal".

Se a "tese" foi frisada para tratar de Aécio Neves, não teve o mesmo "cuidado" para falar de Temer: "Até onde o país estaria disposto a ceder para investigar a razão pela qual o presidente da República recebe, às onze da noite, fora da agenda oficial, em sua residência, pessoa investigada por vários crimes, para com ela travar diálogo nada republicano?".

E alcança, por fim, a resposta para tal dilema e artigo crítico em outra "pergunta": "Que juízo faria a sociedade do MPF se os demais fatos delituosos apresentados, como a conta-corrente no exterior que atendia a dois ex-presidentes, fossem simplesmente ignorados? Foram as perguntas que precisei responder na solidão do meu cargo".

Preocupado com o "juízo" da "sociedade", Janot conduz a Lava Jato e as miras das consequentes etapas que dela desdobraram, alimentando a ânsia desta sociedade, que mira as responsabilizações nos petistas "ex-presidentes".

Da mesma forma como deixou claro no início da Operação no Supremo, antes mesmo da primeira "lista de Janot" ser lançada em 2015, de que para que obtivesse o sucesso, as investigações poderiam derrubar nomes e extorquir imagens às custas de polêmicas não constitucionais, o procurador-geral mostra-se disposto a derrubar, agora, nomes da tradição do PSDB com o único intuito de salvar seu legado na Lava Jato.

Como um resumo das respostas para as escolhas que tomou durante a seu comando na Procuradoria-Geral da República, Janot disse que "a alternativa" de não concordar com as polêmicas da Operação, como o instrumento de delação premiada, "teria sido muito mais lesiva aos interesses do país".

Disse que, para o caso recente, teve três fortes premissas, admitindo que a Lava Jato foi fora da curva da Constituição: "a gravidade de fatos, corroborados por provas consistentes que me foram apresentadas; a certeza de que o sistema de justiça criminal jamais chegaria a todos esses fatos pelos caminhos convencionais de investigação; a situação concreta de que, sem esse benefício, a colaboração não seria ultimada e, portanto, todas as provas seriam descartadas".

E para as acusações dos irmãos Wesley e Joesley Batista, selou a guerra contra Temer: "a colaboração é muito maior que os áudios questionados".

Na despedida do que é uma quase mensagem de campanha eleitoral, na Procuradoria, ainda que sem ter se recandidatado, finalizou: "estou serenamente convicto de que tomei, nesse delicado caso, a decisão correta, motivado apenas pelo desejo de bem cumprir o dever e de servir fielmente ao país".

Leia o artigo na íntegra de Rodrigo Janot no Uol.

Do GGN

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