segunda-feira, 20 de agosto de 2018

PESQUISA CNT: LULA DISPARA, BOLSONARO CAI, MARINA, ALCKMIN E CIRO AFUNDAM

Ainda sem captar a decisão da ONU de cobrar do Brasil que respeite a própria lei e autorize a candidatura do líder da oposição, Lula, encarcerado sem provas, pesquisa da  antipetista Confederação Nacional dos Transportes mostra Lula disparando, Bolsonaro caindo e Marina, Alckmin e Ciro afundando. Desse jeito, Lula chegará à eleição com 100% dos votos
A primeira pesquisa nacional desde o início oficial da campanha eleitoral de 2018 foi divulgada nesta segunda-feira (20) e traz o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em primeiro lugar na disputa presidencial, com 37,3% das intenções de voto.
O levantamento foi feito pelo instituto MDA e encomendado pela CNT (Confederação Nacional de Transportes).
O deputado federal e candidato do PSL ao Palácio do Planalto Jair Bolsonaro aparece em segundo lugar, com 18,8%.
A pesquisa ouviu 2.002 pessoas entre a última quarta-feira (15) e este sábado (18), em 137 municípios de 25 unidades da federação. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%.
Foram testados os 13 candidatos que pediram registro ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Por ser a primeira vez em que o cenário traz apenas os 13 candidatos ao Planalto, não é possível comparar os índices desta pesquisa com os dados anteriores divulgados pelo MDA.
Veja o resultado:
Lula (PT) – 37,3%
Jair Bolsonaro (PSL) – 18,8%
Marina Silva (Rede) – 5,6%
Geraldo Alckmin (PSDB) – 4,9%
Ciro Gomes (PDT) – 4,1%
Alvaro Dias (Podemos) – 2,7%
Guilherme Boulos (PSOL) – 0,9%
João Amoêdo (Novo) – 0,8%
Henrique Meirelles (MDB) – 0,8%
Cabo Daciolo (Patriota) – 0,4%
Vera (PSTU) – 0,3%
João Goulart Filho (PPL) – 0,1%
José Maria Eymael (DC) – 0%
Branco/Nulo – 14,3%
Indeciso – 8,8%
Transferência de votos
A pesquisa CNT/MDA não testou entre eleitores um cenário sem o ex-presidente Lula. A pesquisa avaliou, entretanto, quem eventualmente receberia os votos destinado a Lula caso o candidato, inelegível pela Lei da Ficha Limpa, não possa disputar a eleição.
A candidatura de Lula foi questionada e o TSE deve decidir se o ex-presidente, que está preso desde de abril, poderá disputar as eleições de outubro. Por ter sido condenado em segunda instância, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá (SP), ele foi enquadrado na Lei da Ficha Limpa e se tornou potencialmente inelegível.
Considerando apenas o universo de eleitores que inicialmente declararam voto no petista (37,3%), o ex-prefeito Fernando Haddad, vice na chapa de Lula, ficou em primeiro lugar, com 17,3% das intenções de voto, seguido de Marina Silva e Ciro Gomes, com 11,9% e 9,6%, respectivamente.
NOTA DA REDAÇÃO: Porém, os eleitores não sabem quem seria o candidato indicado por Lula, que seria Haddad. 
Somados, votos brancos e nulos e índice de indecisos representam 47,9% do total.
Respostas espontâneas Registrada no TSE sob o número BR-09086/2018, a pesquisa também trouxe um cenário espontâneo, no qual os entrevistados foram questionados em quem votariam sem que nenhum nome fosse apresentado previamente.
Desta forma, Lula ficou em primeiro, com 20,7%. Em seguida, aparece Bolsonaro, com 15,1%.
Lula (PT) – 20,7%
Jair Bolsonaro (PSL) – 15,1%
Geraldo Alckmin (PSDB) – 1,7%
Ciro Gomes (PDT) – 1,5%
Alvaro Dias (Podemos) – 1,3%
Marina Silva (Rede) – 1,1%
Outros – 1,4%
Branco/Nulo – 18,1%
Indeciso – 39,0%
Blog da Cidadania

domingo, 19 de agosto de 2018

Jogo sujo da grande mídia contra decisão da ONU a Lula vai da manipulação ao cinismo, por Tiago Barbosa

A decisão da ONU de mandar respeitar os direitos políticos de Lula tem sido tratada pela parte podre da mídia brasileira com a velha sordidez filiada ao cinismo e à manipulação.
O jogo sujo consiste em minimizar a avaliação do Comitê de Direitos Humanos enquanto rebaixa a importância do assunto na arquitetura dos portais de notícia.
A manifestação da ONU é cristalina e sem margem para interpretação ou contestação: o país precisa garantir ao ex-presidente o direito de concorrer às eleições. Ponto.
O Brasil ratificou a autoridade do comitê dentro do processo. A Procuradoria da República, idem. Em outros casos, o estado brasileiro reconheceu o órgão com o qual se comprometeu através de tratados.
Significa: o Brasil deu à ONU a palavra final na questão dos direitos humanos e, assim, precisa se submeter às decisões. Ponto.
Mas aí entra a torpeza midiática.
Primeiro, a manipulação semântica e jurídica: a ONU “pediu” (e não “ordenou”), a decisão não tem “poder vinculante”, é “fake news”. E a bravata do Itamaraty, sequestrado pelo golpismo barato e irresponsável, tenta desmerecer o comitê - caminho semelhante seguido pelo apagado ministro da Justiça.
O antídoto à combinação de mau-caratismo com desinformação vem da insuspeita Sarah Cleveland, vice-presidente do comitê da ONU, formado por 18 especialistas eleitos pela Assembleia Geral: “Brasil tem a obrigação de cumprir”. Ponto.
Soterrada pela razão, parte da mídia apela ao cinismo para esconder a notícia. Sem destaque nos sites, redução a notas na TV, comentários de âncoras antipetistas ou dos especialistas de plantão ao estilo “topo tudo para aparecer”.
No dia seguinte, a desfaçatez orquestrada: espaços ridículos nas edições impressas, ênfase na posição do governo e o off para pressionar a Justiça a ignorar a força da liminar.
Não resistem a uma comparação: e se fosse a Venezuela? “Maduro é ditador. Se descumprir, merece intervenção. Sanção neles.” Repercussão com a direita brasileira, juiz, procurador, advogado, o escambau.
Não adianta a importância dada por NYTimes, The Guardian, Reuters, France Press, BBC. O planeta.
A mídia brasileira tenta reduzir a manifestação favorável do principal organismo mundial das nações a um preso brasileiro - o maior estadista das Américas - a um truque eleitoral de mau gosto.
E ainda têm a petulância de falar em fake news e outros engodos enquanto funcionários sabujos se dedicam a tentar distorcer a informação.
O golpismo é, de fato, um monumento à degeneração humana e jornalística.
GGN

sábado, 18 de agosto de 2018

JORNAIS BRASILEIROS ABAFAM DECISÃO DA ONU QUE GARANTE LULA CANDIDATO, POR LUIS FELIPE MIGUEL

Como esperado, os jornalões desprezaram a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU, que exige a garantia aos direitos políticos de Lula. E, ao mesmo tempo, tratam com a maior naturalidade a realização de mais um debate de TV em que o candidato favorito foi impedido de participar.
Na Folha: nenhuma menção à ONU na capa, algumas notas no "Painel" antecipando que a determinação será ignorada pelo Supremo e uma reportagem de um terço de página, em página par, sumarizando o caso. Muito abaixo da relevância do episódio, mas bem melhor que seu concorrente, que escondeu a determinação em uma notinha no meio do "Painel do Estadão" - em que, aliás, ela é chamada de "recomendação do Comitê de Direitos Humanos da ONU" - e no intertítulo de uma reportagem intitulada "Barroso concentra impugnações a Lula". A matéria recebeu uma chamada de capa, tão irrelevante ("Barroso já tem sete ações contra Lula") que seria inexplicável caso não houvesse o desejo de se contrapor à verdadeira notícia, aquela que o jornal optou por ocultar.
Trata-se de minimizar um fato político de enorme relevância. Tanto Folha quanto Estadão fizeram questão de ressaltar que outros políticos foram impedidos de concorrer nas mesmas condições de Lula e não houve ação da ONU. É uma falsa ingenuidade, que pretende não entender que um ex-presidente, candidato favorito numa eleição presidencial, tem mais condições de recorrer a um organismo internacional do que outros.
Em suma: neste caso, uma vez mais, a imprensa põe em funcionamento a doutrina Ricupero: "o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde". Uma doutrina que, segundo as imorredouras palavras do então ministro da Fazenda, só se estabelece graças à ausência de escrúpulos.
Enquanto isso, o noticiário das eleições corre como se vivêssemos a mais normal e democrática das normalidades democráticas. Fiel à sua vocação "pluralista", a Folha inaugura hoje uma seção semanal de polêmica sobre o processo eleitoral, em que a Leandro Narloch encarna a direita e as cores da esquerda são defendidas por... Pablo Ortellado! Já o Estadão, também seguindo a tradição, prefere a voz autorizada dos especialistas consagrados e estampa, na página 2, uma análise de conjuntura assinada por... Bolívar Lamounier!
Mais do que qualquer outra coisa, o tom imposto pela cobertura é evidenciado na coleção de fotos dos candidatos na Rede TV!, recurso ao qual ambos os jornais recorreram. Estão lá oito opções. Tem até uma mulher e um cara barbado. Tem para todos os gostos: do que o eleitor pode reclamar? A eleição transcorre sem percalços, ponto.
Por isso a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU incomoda. É fundamental, para o projeto do golpe, que a ilegitimidade do processo eleitoral no Brasil não seja exposta. Por isso, as empresas jornalísticas ocultam mais este fato.
GGN

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

ECLUSIVO: COMITÊ DA ONU DETERMINA QUE BRASIL GARANTA LULA NA ELEIÇÃO

O Comitê de Direitos Humanos da ONU acolheu nesta sexta (17) um pedido formulado pela defesa de Lula e determinou que o Estado Brasileiro tome as "medidas necessárias" para garantir a participação do ex-presidente na Eleição de 2018. "Diante dessa nova decisão, nenhum órgão poderá apresentar qualquer obstáculo para que Lula possa concorrer nas eleições presidenciais de 2018 até a existência de decisão transitada em julgado" em relação ao caso triplex, afirma a defesa.
De acordo com nota enviada à imprensa, a decisão da ONU foi proferida em caráter liminar e impõe, também, a viabilização da participação de Lula em agendas como debates, sabatinas e entrevistas. O pedido havia sido apresentado pela defesa em julho passado.
No comunicado, a ONU informa que ainda não avaliou a ação protolocada por Lula no Comitê de Direitos Humanos no mérito. 
Leia, abaixo, a nota na íntegra.
Na data de hoje (17/08/2018) o Comitê de Direitos Humanos da ONU acolheu pedido liminar que formulamos na condição de advogados do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25/07/2018, juntamente com Geoffrey Robertson QC, e determinou ao Estado Brasileiro que “tome todas as medidas necessárias para que para permitir que o autor [Lula] desfrute e exercite seus direitos políticos da prisão como candidato nas eleições presidenciais de 2018, incluindo acesso apropriado à imprensa e a membros de seu partido politico” e, também, para “não impedir que o autor [Lula] concorra nas eleições presidenciais de 2018 até que todos os recursos pendentes de revisão contra sua condenação sejam completados em um procedimento justo e que a condenação seja final” (tradução livre). 
A decisão reconhece a existência de violação ao art. 25 do Pacto de Direitos Civis da ONU e a ocorrência de danos irreparáveis a Lula na tentativa de impedi-lo de concorrer nas eleições presidenciais ou de negar-lhe acesso irrestrito à imprensa ou a membros de sua coligação política durante a campanha. 
Por meio do Decreto Legislativo nº 311/2009 o Brasil incorporou ao ordenamento jurídico pátrio o Protocolo Facultativo que reconhece a jurisdição do Comitê de Direitos Humanos da ONU e a obrigatoriedade de suas decisões. 
Diante dessa nova decisão, nenhum órgão do Estado Brasileiro poderá apresentar qualquer obstáculo para que o ex-Presidente Lula possa concorrer nas eleições presidenciais de 2018 até a existência de decisão transitada em julgado em um processo justo, assim como será necessário franquear a ele acesso irrestrito à imprensa e aos membros de sua coligação política durante a campanha. 
Valeska Teixeira Zanin Martins
Cristiano Zanin Martins
 Leia, abaixo, a nota da ONU.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

UMA ESTRATÉGIA DE EXCEÇÃO PARA UM ESTADO DE EXCEÇÃO, POR WILLIAM NOZAKI

O maior partido de esquerda da América Latina, o PT, entra hoje oficialmente em "modo desobediência civil".
A inscrição de um candidato preso injustamente, Lula, mantém o partido em alinhamento com a ampla maioria do eleitorado e em compromisso com a ampla maioria da base do povo brasileiro. Em meio à maré revolta, o navio petista singrará as águas eleitorais orientado pela bússula da defesa da democracia, do desenvolvimento e da maior liderança popular da história do Brasil, mirando ousadamente as brechas do golpe para tentar conquistar presença eleitoral, uma vaga no segundo turno e a vitória na corrida presidencial.
A estratégia correta vem acompanhada de uma tática tão inédita quanto arriscada, uma saída excepcional para tempos e estados de exceção, que põe o partido a enfrentar: o desconforto de progressistas aliados mas concorrentes; as instabilidades impostas pelo judiciário, no TSE, no STJ e no STF; as incertezas sobre a participação nos debates e na propaganda eleitoral; a complexidade de uma eventual operação de transferência de votos e a engenharia de administração do tempo em que todo esse processo deve ocorrer, de modo a minimizar novos e maiores sobressaltos. 
Para o PT, qualquer outra saída que não passe pela manutenção persistente da candidatura Lula não é exequível, seria praticar uma espécie de "impugnação preventiva", antecipando um trabalho sujo que, se for feito, cabe ao Judiciário e não ao partido; além disso, seria uma deslealdade anti-ética e irresponsável com a inocência e a proteção de Lula, patrimônio do PT e do país; mais ainda: se trataria de sequestrar da maioria do eleitorado e dos militantes a possibilidade de explicitar seu desejo nas urnas, o que seria um suicídio político e eleitoral para o partido, e para o conjunto da esquerda.
Menos certezas existem sobre como devem proceder, nesse período, os porta-vozes mandatados diretamente por Lula para vocalizar suas propostas e ideias, com especial atenção para o desafio, disciplinadamente, assumido por Fernando Haddad nessa conjuntura. São muitos os que opinam sobre a situação, menor é o número dos que se dispõe a enfrentá-lá, por fortuna ou virtú coube ao ex-prefeito essa missão. Nesse sentido, informa o boa regra do realismo político, a partir de agora o melhor nome de porta-voz passa a ser o que temos e não o que imaginávamos que poderíamos ter.
De Haddad se espera que cada ideia enunciada venha antecedida da denúncia e da lembrança de que quem deveria estar ali é Lula; cada proposta apresentada deve ser precedida da denúncia do golpe em curso e do estado de exceção que se instalou no país; cada argumento mobilizado deve ter como pressuposto a certeza de que uma disputa de poder dessa magnitude não será enfrentada devidamente apenas com tecnocratas e tecnologias sociais de políticas públicas; deve ter como premissa a certeza de que manter coesa as bases do petismo e do lulismo é mais importante do que diálogos evasivos com a alta elite e a alta classe média; Haddad deve exercitar o desprendimento de sua visão republicana liberal para incorporar em sua fala um projeto democrático, nacional e popular bem mais amplo e complexo do que a visão de Estado cultivada na USP, a noção de mercado glorificada no INSPER ou a leitura de sociedade presente na elite e na intelectualidade paulista.
Da militância se espera a resistência e o empenho na travessia dessa maré. Temos um projeto, uma estratégia e o povo do nosso lado, não nos cabe esmorecer no cansaço ou no desencanto. Empenhados que estavam em proteger seus interesses pessoais, o condomínio golpista perdeu força, eles subestimaram a capacidade de o PT levar adiante sua "guerra híbrida", sendo pragmático nas alianças locais e ousado na manutenção de uma candidatura nacional, segundo eles, "fora-da-lei". O derrotismo, portanto, não se justifica, o golpe deixou frestas e pode sofrer uma derrota real no processo eleitoral e nas urnas.
Tal constatação, entretanto, não deve justificar diagnósticos simplistas, o gêmeo siamês do fatalismo é a ingenuidade, a vitória na batalha das urnas não é sinônimo, imediatamente, de vitória na guerra contra o golpe. As forças no poder tentarão inviabiabilizar, nessa ordem, Lula, Haddad, o PT, a chapa, e, eventualmente, uma posse ou um governo. Temos que estar estrategicamente preparados desde já para pelo menos três possíveis situações: ser retirados das eleições e deixar espaço para a extrema-direita bolsonarista, ter permissão de participar das eleições e enfrentar a direita tucana, e vencer as eleições com a obrigação de criarmos outro tipo de relação com o Poder e com o Estado, com menos "conciliação republicana" e mais enfrentamento democrático.
A mera participação do PT retira as eleições da extrema-direita e a recoloca na centro-direita, pois muda, indiretamente, a correlação de forças entre Bolsonaro e Alckmin. Se esse cenário será devidamente aproveitado depende não só do PT, mas de o PSDB alavancar Alckmin e de o mercado não cometer a irresponsabilidade de encampar em bloco a candidatura Bolsonaro, daí o risco assumido pelo PT, ou leva a esquerda para o segundo turno ou será acusado de ter sido negligente com a onda fascistóide que assombra o país. O partido, portanto, está indo à raiz do problema, colocando seu próprio pescoço à prova, em uma postura radical, como é da natureza da desobediência civil contra o estado de exceção.
Como Dilma, entre 15 de agosto e 17 de setembro lembremos de Maiakóvski: "Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras havemos de atravessá-las. Rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas."
William Nozaki - Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Possui graduação em Ciências Sociais pela USP e mestrado em Economia pela UNICAMP onde realiza o doutorado em Desenvolvimento Econômico. Atua nas áreas de economia política e brasileira pesquisando temas como crescimento econômico, concentração de riqueza e distribuição de renda.
GGN

terça-feira, 14 de agosto de 2018

“Moro, Dodge, Flores e Gebran se associaram, numa quadrilha de toga para impedir libertação de lula”; disse Pimenta

O líder do PT na Câmara, deputado Paulo Lula Pimenta (RS), anunciou nesta segunda-feira (13) que a bancada petista vai entrar com uma série representações contra o juiz Sergio Moro; a procuradora-geral da República, Raquel Dodge; o presidente do TRF-4, Thompson Flores; e o desembargador Gebran Neto, “que se associaram de maneira ilegal, formando uma quadrilha de toga para impedir que a lei fosse cumprida e o ex-presidente Lula fosse colocado em liberdade no dia 8 de julho”.
Segundo o líder, o mais estarrecedor é que a confissão das ilegalidades praticadas por esse “consórcio criminoso” é do diretor-geral da Polícia Federal, Rogério Galloro, em entrevista publicada no domingo (12), no jornal Estado de S. Paulo.
“Quando três ou mais pessoas se associam para atividades criminosas, formam uma quadrilha”, definiu.
Pimenta afirmou ainda que, a partir da entrevista, o que era uma suspeita passou a ser uma realidade: “existe uma quadrilha de toga chefiada por um juiz de primeira instância, que é Sérgio Moro”.
Na realidade, o que o diretor da PF revela é um conjunto de relações e de intimidades que são absolutamente ilegais.
“Foi uma confissão pública de um crime cometido por altas autoridades do Poder Judiciário e do Ministério Público Federal, diante do qual não podemos ficar calados”, indignou-se.
Para o deputado, atitudes como essa reforçam a parcialidade da Operação Lava Jato. “A perseguição a Lula passou a ser o objetivo maior da operação”, lamentou.
Confissão – O diretor-geral da PF afirmou na entrevista que sofreu e aceitou pressões de Sérgio Moro; recebeu um alerta da procuradora-geral, Raquel Dodge; e ouviu ordem de Thompson Flores para desobedecer a decisão judicial de soltar Lula.
“E é estarrecedor, segundo noticiou a imprensa, o desembargador Gebran Neto ainda disse a amigos que agiu ‘fora da lei’ para ‘evitar o mal maior’, que seria soltar Lula”, completou o líder do PT.
Paulo Pimenta não descartou também uma representação contra o próprio diretor da Polícia Federal por crime de prevaricação no descumprimento da decisão judicial. “Foi ele mesmo que relatou a prática de ilegalidade. Foi ele quem disse que foi consultado e que consultou o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, sobre o caso”.
O líder do PT destacou ainda, em coletiva à imprensa, dois fatos que ele considera inaceitável.
“Tratava-se de uma liminar [para soltar Lula] de um desembargador do TRF-4 direcionada à juíza de Execuções Penais. Sequer tinha relação com a vara do juiz Sergio Moro. Eu estava na PF e foi uma surpresa. O agente de plantão, sem qualquer tipo de constrangimento ou cerimônia, se dirigiu a nós e disse: ‘eu não vou autorizar por causa de uma ligação do juiz Moro para não cumprir a decisão enquanto ele não ler a ordem’.
Ora, se qualquer pessoa tem discordância de uma decisão judicial, que recorra na forma da lei”, bradou.
Paulo Pimenta também disse que é inaceitável Raquel Dodge ter ligado para o diretor-geral da PF para pedir que a decisão não fosse cumprida.
“Eu fico me perguntado qual é o papel do MPF em algo tão grave, do ponto de vista da legalidade? Com essa ilegalidade, Dodge acaba revelando um consórcio de agentes públicos que atua de forma combinada para não cumprir a lei, prejudicando uma pessoa” denunciou.
Consórcio criminoso – O líder do PT detalhou as várias representações judiciais e criminais que serão apresentadas contra cada um dos integrantes do que ele chamou de “consórcio criminoso”.
As representações contra o juiz Sergio Moro e os desembargadores Thopson Flores e Gebran Neto serão no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Sobre Raquel Dogde, Paulo Pimenta disse que o mais provável é que seja um comunicado geral ao Supremo Tribunal Federal (STF), pedindo a suspensão da procuradora-geral das suas funções. “Não faremos ação no Conselho Nacional do Ministério Público, porque ele é presidido pela própria Dogde”, frisou.
Convocações – Paulo Pimenta também anunciou ações legislativas sobre o caso. A Bancada do PT vai encaminhar requerimentos para comissões permanentes da Casa pedindo a convocação do ministro Raul Jungmann, a quem a PF é subordina, e da procuradora-geral, Raquel Dodge.
Também haverá requerimentos convidando os demais integrantes desse “consórcio criminoso” denunciado pelo diretor da PF.
Viomundo

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A INSTIGANTE HISTÓRIA DO DESENVOLVIMENTO EM MINAS GERAIS, EM BRASILIANAS

É instigante o processo de desenvolvimento de Minas Gerais. Dispondo de matéria prima abundante, material humano, sendo precursora dos programas de desenvolvimento no país, Minas Gerais acabou ficando para trás no processo de industrialização. 
Nos últimos anos Minas exportou 1,6 milhão de pessoas formadas para São Paulo e outros estados, e recebeu apenas 600 mil, enquanto São Paulo recebeu 9 milhões de todo o país e cedeu apenas 800 mil. Tornou-se fundamentalmente um Estado produtor de commodities, profundamente afetado pela Lei Kandir. 
Depois de perder o bonde da industrialização, e das vantagens competitivas decorrentes do adensamento da cadeia industrial, como montar um projeto de desenvolvimento valendo-se das novas tecnologias? 
Este foi o desafio principal do seminário “As empresas públicas na promoção do desenvolvimento regional”, uma parceria da Plataforma Brasilianas com a Cemig (Centrais Elétricas de Minas Gerais). 
O pioneirismo que não deu certo 
Como relatou o economista e historiador João Antônio de Paula – um dos palestrantes- , os Inconfidentes tinham um projeto. Propunham a construção de universidades, a mudança da capital, correio regular, sistema de comunicação entre as vilas. Discutia-se até a escravidão. A idéia era de um Estado com papel econômico relevante. 
Ao longo do século 19, essa precocidade se mantem com Teofilo Ottoni. Empresário, grande liberal, preso em 1842, se insurgiu contra a centralização do Segundo Reinado. Construiu a cidade de Nova Filadélfia, que depois se tornou Teófilo Ottoni, com projetos de ferrovia, canais, multimodal. Extremamente avançado para a época, se baseava no modelo norte-americano de federalismo, ao contrário da visão hispânica hegemônica. 
No final do século 19, outra figura fundamental foi João Pinheiro, dos mais relevantes personagens da história política do Brasil. Torna-se a principal liderança civil em Minas Gerais e teria sido o primeiro governador pós-República, não fossem as circunstâncias políticas da época. Mas foi o segundo governador de Minas, presidente do Congresso Agrícola-Industrial Mineiro de 1906, precursor dos projetos de desenvolvimento em políticas públicas, reunindo classes de produtores e empresariado mineiro, que formularam série de demandas de desenvolvimento. 
Morreu precocemente em 1908, aos 47 anos, quando era candidato certo à presidência da República. Poderia ter sido o mais inovador presidente na República Velha. 
Em 1906 inaugurou a reforma do ensino, precursora de uma inovação decisiva, com a criação dos grupos escolares, currículos estruturados, seriado, com professores qualificados. Essas sementes vão frutificar a partir dos anos 30, período típico do desenvolvimentismo, como espécie de ideologia do desenvolvimento. 
Minas foi o único Estado pós-1930 sem intervenção federal. O primeiro governador, Olegário Maciel montou um time que juntava Gustavo Capanema, Benedito Valadares. Morreu precocemente em 1933 e Getúlio Vargas indicou Benedito Valadares para sucessor. 
Ao contrário das lendas, Valadares foi um governador extremamente atuante e inovador. Escolheu para a Secretaria da Agricultura (que incluía indústria, comércio e trabalho) Israel Pinheiro que, de 1933 a 1942, fez uma gestão bastante profícua. 
Israel deixou a Secretaria para se tornar presidente da Companhia Vale do Rio Doce. Em seu lugar assumiu Lucas Lopes, primeiro presidente da Cemig. Em 1944 ele criou o Instituto de Tecnologia Industrial, modelar, trabalhando com inovação tecnológica e formação de pessoal. Seu Secretário da Agricultura, América Gianetti, que depois se tornou prefeito de Belo Horizonte, em 1947 montou o primeiro plano de desenvolvimento regional do Brasil. Propôs novos impostos para custear investimento. Desse esforço sai um conjunto de companhias, entre as quais a Cemig, que ajudam a tornar o governo Juscelino Kubitschek (1951 - 1955) um dos mais inovadores do país. 
Com a queda de Getúlio, o udenista Milton Campos se tornou governador, mas manteve o olhar no futuro. No seu governo foi lançado o plano de eletrificação de Minas Gerais, coordenado por Lucas Lopes e entregue em 1950. 
JK se elegeu com o binômio energia-transporte, reorganiza o Departamento de Estradas e Rodagens e impulsiona as grandes empresas de engenharia nacionais. Em seu governo apareceu pela primeira vez a ideia de criação de um banco de desenvolvimento, o BDMG, funcionando de acordo com o modelo BNDES. 
Nas décadas seguintes, Minas inova com a criação do INDI (Instituto Integrado de Desenvolvimento Econômico), o esforço interno que permitiu a atração da Fiat, a expansão da Usiminas. 
Porque a industrialização não se espalhou por Minas? 
Na opinião de Marco Antônio Castello Branco, presidente da CODEMIG (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais), ao longo de sua história Minas produziu áreas de excelência, mas atuando de forma desarticulada.  
Na definição de um dos estudiosos do fenômeno mineiro, Virgílio Almeida, Minas produz muitos cérebros, mas é zero em sinapses – a capacidade das células do cérebro interagirem com o corpo. 
Há problemas culturais, no conservadorismo do mineiro, muito fechado em seu canto. Há problemas na própria formação econômica do Estado, especialmente com a perda dos principais bancos para São Paulo. Todo o capital financeiro foi para São Paulo e as regras de aplicação do Banco Central permitem que os bancos possam captar de todo o país e concentrem seus empréstimos em São Paulo. 
Como planejar o desenvolvimento 
Sem a massa crítica acumulada por São Paulo no tecido industrial, financeiro e de serviços, como planejar um desenvolvimento sem que os avanços sejam sugados pelo vizinho poderoso? 
Há muitas Minas Gerais, a do Nordeste, no Vale de Jequitinhonha, a paulista, no sul de Minas e no triângulo, com enormes disparidades de renda. As regiões mais pobres têm 25% da população e 17% dos votos, enquanto as mais ricas possuem 58% da população e 66% dos votos. Portanto, a distribuição não se dará pela via legislativa. 
A tentativa de planejamento recente, no governo Fernando Pimentel, consistiu, inicialmente, em criar um projeto pensado na Cedeplar, o Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional, braço da Faculdade de Ciências Econômicas, que historicamente foi berço das melhores propostas de desenvolvimento do Estado desde os anos 50. 
Surgiu de lá a criação dos Territórios de Desenvolvimento, fóruns regionais com reuniões bianuais, juntando empresários, organizações sociais e representações diversas de cada região para discutir o seu próprio desenvolvimento. 
Depois, identificar as vantagens comparativas do Estado. De um lado, setores tradicionais já consolidados. De outro, centros de tecnologia de primeira, especialmente na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Finalmente, riquezas minerais estratégicas para as novas eras tecnológicas. 
A partir daí, a ideia foi criar ou fortalecer polos regionais, que funcionariam como sementes, permitindo alcançar novos atores. Com uma crise fiscal brava, houve um filtro rigoroso dos investimentos, de maneira a contemplar aqueles que garantissem um diferencial tecnológico.  
Castello Branco destaca que a estratégia para direcionar investimentos dentro do escopo de projetos apoiados pela CODEMIG foi enxergar os setores prioritários a partir de três lentes: vocação territorial, capacidade de atuação da companhia de investimentos e impacto econômico. Os setores que alcançam esse as três vertentes são chamados de "estratégicos". 
A partir dessa lógica, os planos de investimento são arranjados entre setores tradicionais e inovadores, sempre respeitando as características regionais.  
"Esse arranjo fundamentou a estruturação organizacional da companhia, anteriormente focada na execução de grandes obras de infraestrutura, agora está baseada em três eixos estratégicos - alta tecnologia, indústria criativa e mineração, energia e infraestrutura -, atuando assim no desenvolvimento social e fomento de novos negócio", completou em sua apresentação.
  
Hoje, a carteira de investimentos da CODEMIG é diversificada o suficiente para alcançar desde propostas para exploração de terras raras e produção de grafeno, passando por setores como aeroespacial, defesa, biotecnologia, semicondutores até gastronomia, moda e turismo, contemplando ao todo 21 áreas produtivas. 
Terras raras e outros investimentos  
O ideia central do planejamento foi aproveitar as riquezas minerais, os arranjos produtivos já existentes e a inovação que brota da UFMG e dos institutos tecnológicos. E apostar em indústrias-chave, com apoio financeiro e participação no capital. 
Foram feitas várias apostas. O programa de investimento em terras raras, insumo decisivo para a produção de eletroeletrônicos, induziu, por exemplo, a CODEMIG a buscar parcerias com centros de desenvolvimento tecnológico de fora do Estado, são eles: o Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (CERTI), a Universidade Federal de Santa Catarina e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). A iniciativa é para viabilizar o primeiro laboratório-fábrica de Ligas e Ímãs de Terras Raras no Brasil (LabFabITR), incluindo acordos com empresas como a BRATs, Imag e CBMM.  
As terras raras também são matéria prima para craqueamento de óleo de soja. O que fez a CODEMIG investir também na produção de bioquerosene de aviação, juntando setor de ponta com agricultura. 
Minas é o maior produtor de grafite. O Estado criou a Neografeno, com 45 pessoas trabalhando e investiu em uma empresa de Oxford que desenvolveu tecnologia de bateria de lítio. Entrou também no capital da Companhia Brasileira de Lítio, uma empresa familiar em Araçoaí, que produz lítio metálico para baterias.  
Foram criados, ainda, fundos, entre os quais a Aerotec, que investiu em uma empresa de Uberaba que está desenvolvendo resina e software para impressoras 3D. 
Em relação às atividades tradicionais, implantou um programa de certificação, essencial para o aumento das exportações. E passou a trabalhar as riquezas culturais do Estado, das quais a mais relevante é a culinária. 
O programa lançado visa elevar a culinária de Minas ao mesmo patamar do Peru, por exemplo. 
Em resumo, a estratégia mineira de desenvolvimento contempla não apenas a interiorização, mas também a diversificação nos patrocínios de projetos e eventos.  
Editais com esse foco - ampliação do acesso aos recursos, diversificação da economia, descentralização de investimentos e interiorização do desenvolvimento -, são lançados pelo Governo do Estado e a CODEMIG desde 2015. De lá para cá foram lançados 3 pelo Governo, com investimentos de mais de R$ 3 milhões para 100 projetos. A própria companhia, completa Castello Branco, lançou 4 chamadas públicas de patrocínio com ofertas que totalizaram R$ 3,5 milhões para mais de 300 projetos. 
De qualquer modo, são quase projetos piloto, pelo valor investido e pelo número de empresas alcançadas, que só ganharão escala quando Minas Gerais resolver a grave crise fiscal decorrente da queda da atividade econômica e das pedaladas fiscais da gestão Antônio Anastasia - paradoxalmente, o relator das pedaladas fiscais de Dilma Rousseff no Senado. 
Case Voe Minas Gerais 
GGN

domingo, 12 de agosto de 2018

NO DIA DOS PAIS, A BUSCA INCESSANTE DO ENIGMA, POR LUIS NASSIF

É complexa essa relação de pais e filhos, especialmente os da nossa geração, presos a uma educação mais formal e a um fechamento maior entre as gerações.
Dia desses, ousei enxergar na essência da criação de Guinga uma relação não resolvida com o pai, especialmente depois do impressionante “Meu Pai”, letra e música dele, apresentado em uma sessão intimista no Bar do Alemão.
A permanente tensão da harmonia, que caminha na frente levando a melodia consigo, parecia uma decorrência desse conflito. O tema é a busca incessante para desvendar o enigma do pai, a tentativa permanente de entender cada gesto, cada atitude, um conhecimento gradativo e doloroso que vai se dando aos poucos quando, a cada nova etapa da vida, as experiências e semelhanças vão se acumulando.
Apenas no final do percurso é que se percebe que a busca, em si, acaba moldando nosso próprio destino, nos fazendo repetir a saga paterna, as cabeçadas, os desafios, os erros, os desafios, como maneira de ir internalizando o pai dentro de nós para conseguir as respostas. A melodia, o trajeto,  a vida, é mera decorrência.
Pela emoção de Guinga, uma semana depois, achei que tinha acertado no diagnóstico.
Em cada ida a Poços vou juntando as informações sobre seu Oscar, a saga inicial do jovem filho de imigrantes, arrimo de família desde a adolescência, que adquiriu a farmácia com vinte e poucos anos no momento em que, com o fim do jogo, Poços começava a se desenvolver. Era um grupo de jovens comerciantes que mudou o centro do comércio da rua Marechal Deodoro, que acompanhava o rio, para quatro quarteirões centrais da cidade.
Seu Oscar participou de todos os momentos, integrou todos os clubes de apoio à cidade, da Caldense, do qual foi diretor de futebol por 20 anos, ao Lyons, Rotary, Maçonaria – que deixou como pré-condição para casar na Igreja -, Associação Comercial e o que mais viesse em benefício da cidade. Acho que só não foi vicentino.
Não se metia em política partidária. Recentemente encontrei um artigo na Gazeta de Farmácia relatando seu estilo nas reuniões do Conselho Federal e do Conselho Regional. Ouvia a todos e, depois, tentava a síntese, harmonizando as posições em torno de princípios muito claros e sem jamais recorrer à retórica vazia, segundo o autor do artigo.
De certo modo repetia a saga do avô, espécie de prefeito da pequena Ain Aar, a vila que fica a poucos quilômetros de Beirute. E do próprio pai que, segundo minhas tias, era um mediador das disputas da colônia libanesa em Rosário.
Em casa, contrabalançava o radicalismo feroz do sogro, meu avô Issa Sarraf, udenista, lacerdista, com pitadas de moderação. Como quando me recomendou a leitura de uma revista liberal, Política & Negócios, se não me engano, em contraposição a um panfleto de nome Ação Democrática, que meu avô me mandava.
Dia desses, um psiquiatra escreveu um artigo instigante, identificando a família como centro de conservadorismo – da ideia de conservar valores. Em momentos de ruptura, dizia ele, famílias perdem influência nos mais jovens. Deve ser por isso que, na adolescência, envolvido em mil atividades em Poços e São João da Boa Vista, deixei de me aprofundar nas relações familiares e aproveitar as informações de minhas tias Marta e Rosita.
Descobri que não estava sozinho nessa busca quando visitei o primo Armando Bogus no Sírio Libanês e marcamos uma conversa sobre a família quando ele saísse de lá. Morreu pouco depois e a viúva me ligou dizendo que seus últimos momentos foram de expectativa para a conversa que nunca tivemos.
Os Schkair – nome de família – vieram de Aina Aar, vila próxima a Beirute e se espalharam por São Paulo, São João da Boa Vista, Vargem Grande do Sul, em uma infinidade de sobrenomes, Nassif, Constantino, Zogbi, Gebara, Salomão, Marun, Gióia, Aschkar (juro que um dia ainda conseguirei recuperar a árvore genealógica da família para desfazer a trapalhada dessa prática árabe do neto ter o nome do avô como sobrenome). No Facebook foi montado um grupo com todos esses sobrenomes, mas poucas informações sobre os ascendentes.
Mas, graças à Internet, descobri a certidão de casamento de meu avô, Luiz (Slaib) Nassif, com minha avó Carmen Abdalla Melaj, em 1907 em Mendoza, Argentina. Na certidão, o nome de meu bisavô, Nassif Schkair, o inverso do Schkair Nassif, de meu pai. E, no que restou dos arquivos do bisavô, indícios de que os conterrâneos se espalharam não apenas pelo Brasil, mas por Rosário e Mendoza, trazendo do Líbano relações comerciais que se mantiveram no Ocidente, especialmente para a importação de tecidos.
Dia desses estive em Buenos Aires em um primeiro contato com parentes, que descobri através desses serviços de árvore genealógica. Três simpáticos casais, mas refletindo a radicalização latino-americana. Havia um feroz defensor dos militares, outro defensor de Cristina Kirchner e um terceiro que, sempre que a conversa ameaçava chegar na política, ajudava a mudar de assunto. Mas pouca informação sobre os ascendentes mais longínquos.
Quando minhas tias falavam das terras no Líbano, na vila em que a família morava, sempre imaginava tendas árabes e beduínos. Depois de conseguir recuperar as fotos de família é que me dei conta de que, em fins do século 19, eram mais ocidentalizados que os fazendeiros brasileiros da época.
E fico me indagando a razão de jamais ter me aprofundado nessas investigações familiares. Pela simples razão, que me foi contada por Lindolfo Carvalho Dias, amigo de papai: “Com dez anos de idade seu pai era argentino. Com dez anos e um dia, tornou-se mineiro”.
A família que saiu de Ain Aar, passou pelo Brasil, foi para a Argentina, voltou para o Brasil, nada tinha de nômade. Havia uma necessidade tão grande de fincar raízes que Poços de Caldas jamais saiu da memória do seu Oscar. E o dia em que o vi mais exultante, feliz, foi quando reuniu dezenas de amigos em casa para celebrar o sonho alcançado: a naturalização como brasileiro.
Ser brasileiro foi o valor maior ensinado em casa, que se sobrepôs às raízes libanesas, à nostalgia porteña de minhas tias. O velho lutava em todos os momentos pelo Brasil civilizado.
Anos atrás recebi um e-mail de uma conterrânea, que morava no início da subida da rua Rio de Janeiro para o Largo de São Benedito, nossa rua. Quando a rua foi asfaltada, os carros passavam em velocidade imprudente.
Seu Oscar juntou os meninos do início da subida, explicou que a rua era deles e, por isso, deveriam zelar por ela e por sua segurança. E orientou-os a criar faixas alertando os motoristas a correrem menos.
GGN

sábado, 11 de agosto de 2018

TIRANDO AS TEIAS DE ARANHA DA SALA, POR PEDRO PINHO

O que precisamos no Brasil, para sair desta ditadura jurídico-midiática e da opressão financeira do neoliberalismo, é da efetiva renovação política.
Não para colocar os filhos da gerontocracia que domina há séculos nossa Nação, os "netos do poder".
A única vez que tivemos a possibilidade de mudar, verdadeiramente, o País, com nova economia, novos padrões de sociedade e cultura, foi na Revolução de 1930, dirigida pelo nosso maior estadista até agora, Getúlio Vargas.
Ele também foi deposto, exilado no próprio território nacional, atacado pela corrupta comunicação de massa, sempre a soldo dos interesses estrangeiros, e jamais saiu da alma do povo.
Getúlio encontra agora, igualmente perseguido pelas "forças e os interesses contra o povo", que "não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa", seu sucessor, estadista e popular, Luis Inácio Lula da Silva.
Mostrando mais do que um gênio político, a grandeza da alma que se preocupa com a nação e seu povo, como Vargas, em 1945, Lula disse: "Vote em Haddad!", "Vote em Manuela!".
Um dos aspectos do Brasil que Vargas queria construir está relatado em "América aracnídia", de Ana Luiza Beraba. Vemos ali o modo de colocar o Brasil como referência e projeção continental durante o Estado Novo. Na edição de um suplemento – Pensamento da América – contando com intelectuais melhor relacionados com as culturas e autores latino-americanos, caribenhos, estadunidenses e canadenses, formou-se no dizer de Ana Luiza as "teias culturais interamericanas".
Coloco este fato, pouco conhecido, para mostrar a dimensão de um estadista, acima de tudo interessado na construção de um País soberano, capaz de promover o desenvolvimento para seu povo, e conquistar respeito e projeção no exterior.
Lula com o Mercosul e com os BRICS agia na mesma linha de Getúlio. E, como é óbvio, aqueles que "não querem que o povo seja independente", promovem "campanha subterrânea dos grupos internacionais" aliados a "grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. Contra a justiça da revisão do salário mínimo" contra a "liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás" querem destruir as conquistas da Era Vargas e o Legado de Lula.
O mar de lama não corria no Catete de Vargas, como não corre nas lideranças do Partido dos Trabalhadores. Lá, como agora, o mar de lama corre nas hostes entreguistas, nos golpistas que querem entregar a Petrobrás, a Eletrobrás, as riquezas nacionais, a previdência social e o salário digno dos trabalhadores.
Precisamos de um governo que acabe com o monopólio midiático, com a entrega do patrimônio natural e o construído pela Nação, que nos devolva a dignidade e a garantia do trabalho, que leve nossa cultura a outros povos e nos dê a paz.
Poderemos ter Soberania e Paz com um Presidente que afirma: "Pobre não sabe fazer nada", segundo a Folha de São Paulo? Ou tem um vice para quem o Brasil herdou a "indolência dos indígenas e a malandragem dos africanos", em evento na Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul (RS).
Ou de candidato que promete rever o papel do Estado, hoje, "caro, inchado e ineficiente" e "diminuir a máquina" nacional para que seja ocupada por empresas estrangeiras, pagando salários miseráveis, eliminando direitos trabalhistas e previdenciários, exportando a preços vis nossas riquezas naturais, nosso petróleo, nosso minério, a água de nossos aquíferos, para lucro dos fundos abutres, dos ricos investidores estadunidenses, europeus e asiáticos?
Estamos diante de um conjunto de candidatos que representam o passado, um passado de escravidão e de ódio.
O medo da mudança, por essas forças do passado, ficou claramente demonstrado pela Rede Bandeirantes censurando a presença de Haddad no debate dos presidenciáveis pela televisão.
Precisamos tirar estas teias de aranha da sala, de nossa porta.
Precisamos da juventude de idade e de ideias. Ele disse: Haddad e Manuela.
Pedro Augusto Pinho - é avô, administrador aposentado.
 GGN

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

XADREZ DA DITADURA DAS CORPORAÇÕES PÚBLICAS, POR LUIS NASSIF

Movimento 1 – o golpe
No começo, a elite civil prepara o campo para a desestabilização do sistema elegendo a figura do inimigo, o PT. Há o primeiro teste no mensalão. Depois, entra-se no jogo decisivo, adiado pelo bom momento da economia.
Quando a situação econômica piora, Judiciário e Ministério Público definem a melhor estratégia para tornar a Lava Jato uma operação irreversível. Consiste em investir sobre a linha de menor resistência, mirar um alvo que garanta a montagem de alianças com as estruturas de poder.
São varridos para baixo do tapete os indícios contra próceres tucanos, mercado financeiro, mídia e Ministros de tribunais superiores. O foco se concentra em Lula, no PT, em alguns peemedebistas mais notórios e no arco de alianças desenhado pelo projeto PT de poder, que tinha nas empreiteiras os maiores parceiros.
Movimento 2 – a falta de elite e de projetos
Monta-se uma verdadeira legião estrangeira em favor do golpe. Participam dela tropas das corporações públicas, do Judiciário, bilionários que saem às ruas como cidadãos comuns, cidadãos comuns que saem às ruas como linchadores habituais, e linchadores que saem às ruas armados de suas prerrogativas de magistrados e procuradores amparados por manchetes escandalosas. A bandeira única que os une é a eliminação definitiva dos inimigos.
A elite civil participa da conspiração, mas não assume a liderança, não conduz, é conduzida. Contenta-se com sua parte no butim, colocando na área econômica um gtupo de xiitas sem noção, disposto a mudar a realidade com a força da fé.
Conquistado o poder, o que fazer? Parte-se para o desmonte do modelo anterior sem nenhum projeto alternativo de país. Em vez de aprimoramentos necessários, liquida-se com a legislação trabalhista. Em vez de gestão fiscal responsável, monta-se o monstrengo inviável da Lei do Teto. Tenta-se a fórceps uma reforma da Previdência cuja conta recai inteiramente sobre os empregados do setor privado. Sufoca-se a economia com uma política fiscal irresponsável porque a guerra contra o inimigo não permite questionamentos intra-tropa e a fé não costuma falhar.
Mas e a ideia mobilizadora, e a voz de comando capaz de aglutinar a legião dos vencedores em torno de programas políticos viáveis, impondo um mínimo de ordem na bagunça? Nada. Porque a elite nacional é apenas um mito, desde os tempos mercantilistas aos anos da financeirização.
Movimento 3 – a Ditadura das corporações
Sem um general comandante, derrubada a cidadela adversária as tropas assumem o comando.
Sobre os escombros da economia, TCU, AGU, MPU, e todos os Us de Brasilia, negociam entre si a divisão do butim, quem pode punir, quem pode conceder, quem pode perdoar, quem negocia a delação, quem garante o acordo de leniência.
O Brasil improdutivo assume o controle do Brasil real, e tropas sem oficiais tomam as rédeas nos dentes enquanto um empresariado invertebrado, sem noção de projeto, paga a conta junto com seus trabalhadores.
O melhor exemplo desse comando difuso, aliás, é o Ministro Luís Roberto Barroso, do STF. Aliado do golpe, Barroso preencheu o universo midiático com chavões sobre o empreendedorismo, sobre um Estado menor. Em nome desse sonho neliberal, avalizou a Lei do Teto, com todas as implicações sobre as políticas sociais e os direitos básicos do cidadão. Não se gasta mais do que no ano anterior corrigido pela inflação.
Na hora de discutir o reajuste dos proventos de Ministros do STF, não vacilou: votou a favor dos 16% de reajuste, mesmo sabendo do impacto sobre toda a cadeia de benefícios do serviço público. O que significa? Que as figuras públicas que, tal como as birutas de aeroporto, seguem o caminho dos ventos, estão identificando um vento mais favorável aos seus projetos pessoais: em vez do mercado, o Partido do Judiciário.
Movimento 4 – histórias de promotores
E aí se ingressa na pior das ditaduras, que é a o dos centros difusos de arbitrariedade. Em qualquer cidade do país, um promotor pode se dizer investido do poder divino e providenciar Justiça com as próprias mãos. E esse poder está sendo utilizado sem nenhum discernimento, inclusive contra membros das próprias corporações que não se alinham com o golpe.
Em Recife, o promotor da Vara de Execuções Penais Marcellus Uglete, considerado um garantista (solicitou a interdição de vários presídios), foi denunciado por colegas com base em indícios frágeis - grampos em advogados em que seu nome foi apenas citado - e se tornou alvo de uma operação de busca e apreensão. Os invasores – policiais civis comandados por um colega de Marcellus – sequer esperaram que ele abrisse a porta. Teve a casa arrombada na presença de três netos, dois filhos, a esposa e o irmão.
Em Niterói, um comentário em rede social feito pelo Policial Federal Sandro Araújo, criticando a operação que levou ao suicídio o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) motivou uma denuncia da Associação Nacional dos Delegados da Policia Federal.
Disse o policial: “Minha prece hoje é por Luiz Carlos Cancellier de Olivo. Reitor da UFSC que tirou a própria vida após ser preso de forma INJUSTA, ARBITRÁRIA e EQUIVOCADA pela Polícia Federal. A responsável pelo ERRO CRASSO não foi tocada e segue com sua carreira”.
No Paraná, uma parceria entre juízes federais e PFs impõe uma sucessão de condenações pecuniárias contra blogs que ousam questionar a atuação de policiais.
E não se para nisso.
Em Belo Horizonte, o dono de uma rede de supermercados foi intimado por um jovem promotor de direitos do consumidor a dar explicações para os critérios utilizados em um concurso que premiou a melhor frase sobre o aniversário da empresa. A intervenção do promotor foi motivada por um competidor, que se sentiu lesado na competição e apresentou, em sua defesa, um livro de poesias de rimas mancas de sua autoria.
Abusos como este estão pipocando por todo o país. E a única resistência visível reside no contraditório porém destemido Ministro Gilmar Mendes.
Movimento 5 – um ciclo sem prazo
Vai piorar antes de melhorar, porque se trata de um processo sem objetivos, de uma tropa sem comando, de um arquipélago de poderes individuais sem a ação coordenadora das chefias e lideranças, e de um poder sem projeto. O que os move é apenas o exercício do poder individual pelo poder e a defesa dos interesses corporativos.
Há um cenário possível para as próximas eleições: uma final entre o candidato do PT e Bolsonaro. Nessa hipótese, o risco Bolsonaro seria um fator catalisador maior do que o medo PT da classe média. Portanto, havendo essa composição no segundo turno, há a probabilidade concreta de vitória do candidato de Lula.
Aí, talvez, o mercado se dê conta de que a fonte de todos os males não são as migalhas distribuídas aos mais necessitados, mas o cheque em branco entregue às corporações de Estado.
Do GGN

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

JUSTIÇA ELEITORAL SARNEYZISTA DECRETA INELEGIBILIDADE DO GOVERNADOR FLÁVIO DINO DO MARANHÃO

 A juíza eleitoral da 8ª Zona, Anelise Nogueira Reginato, decretou a inelegibilidade do governador Flávio Dino (PCdoB), do ex-secretário de Estado de Comunicação, Márcio Jerry (PCdoB), do prefeito de Coroatá, Luiz Mendes Ferreira Filho e do vice, Domingos Alberto Alves de Souza. A magistrada alega abuso de poder político nas eleições de 2016. Ainda cabe recurso.
A decisão é baseada em Ação de Investigação Judicial Eleitoral ajuizada pela coligação "Coroatá com a força de todos". A coligação é composta pelos partidos PMDB, PP, PTB, PTN, PSC, PR, DEM, PSDC, PRTB, PV, PT do B, PROS e PRP.
Esta coligação, na petição inicial, sustentou que os candidatos a prefeito e vice-prefeito de Coroatá "praticaram escancaradamente abuso de poder econômico, político e captação de sufrágio vedada por lei, mediante farta compra de votos e troca de bens e favores, dinheiro em espécie, promessa de motocicleta, promessa de empregos, doação de areia, tijolos, ferro, telha, tudo isso visando a obtenção de mandatos eletivos".
A magistrada, então, entendeu que a atuação do governador Flávio Dino e do secretário Márcio Jerry, usaram a estrutura do Governo do Estado do Maranhão para promover a eleição dos candidatos.
Ela sustentou que "o caso dos autos é, pois, de flagrante abuso de poder político" e que "é por demais grave a conduta do governador do Estado de utilizar a máquina pública para angariar votos para um candidato a prefeito (e seu vice-prefeito). Aliás, não é grave, é gravíssima".
Assim, com base nesses dados, decretou a inelegilidade de Flávio Dino e Márcio Jerry e cassou os mandatos do prefeito e do vice-prefeito do município de Coroatá.
Flávio Dino, governador do Maranhão, respondeu através de seu perfil em rede social. Dino tratou a sentença como "especulação" de adversários políticos e afirmou que irá pleitear sua candiatura no TRE-MA amanhã, dia 9.
"Amanhã irei pleitear normalmente meu registro ao TRE, que será deferido nos termos da lei. E semana que vem vamos começar mais uma bela campanha alegre, propositiva e vencedora", disse.
 GGN