quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A ARTE DE NÃO LER, POR ÂNGELO ROMAN


"No que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante".
Senso comum: "Quem lê escreve bem". "Quem lê sabe das coisas".
Contraponto (de Schopenhauer): "Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental. Trata-se de um caso semelhante ao do aluno que, ao aprender a escrever, traça com a pena as linhas que o professor fez com o lápis". 
Quando eu era professor universitário, o coordenador do curso de Jornalismo considerava a leitura de livros quase igual ao ar que respiramos. Isso é um exagero, pelas variáveis que envolvem o ato de ler. Ele até fazia julgamento sobre as pessoas em função de leitura de livros. Eram comuns seus comentários como "Até quem leu só dois livros entende isso" quando numa discussão. Como se o pensamento estivesse diretamente ligado ao número de livros lidos. E forçava, com o uso de notas, que os alunos lessem. Não o que preferissem, mas os livros listados pela escola. Só que, quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Sobre arte e literatura, nota dez para o coordenador. Erudição não lhe faltava.  Gostava de se reunir com colegas e ficar falando de livros e de filmes. Pensamento crítico sobre o mundo, nota zero.
Segundo o filósofo Arthur Schopenhauer, "muitos eruditos leram até ficar estúpidos". Pois é. Ainda do filósofo, a afirmação de que aquele que lê muito perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria.
Sou seguidor do pensamento de Rubem Alves de que  a escola deve ensinar o prazer de ler. Isso de forçar pode dar algum resultado, mas não desenvolve o prazer da leitura. Diz esse autor, ainda: "Pensar não é ter as informações. Pensar é o que se faz com as informações".
E há algo muito importante sobre a arte de não ler: o que ler? Literatura faz bem pra alma, traz descobertas, conhecimento de outras culturas e muito mais. Fundamental para todos. Mas é preciso ler coisas que questionam e desnudam o mundo também. Desenvolver a imaginação é bom. Mas ela sozinha, sem cultura, conhecimento, deixa a pessoa com asas, mas sem pés. Um estudante de Jornalismo (com o cuidado de que, quando lemos, outra pessoa pensa por nós e podemos repetir seu processo mental), tem que ser estimulado a ser crítico dos fatos que nos rodeiam, não crítico literário (que pode até ser depois, como opção profissional).
Ler exige "ruminar" para tomar para si o que se lê. É como a comida: ela não nos nutre pelo comer, mas pela digestão. Nessa "ruminação" entram os valores de cada um, a procura do contraditório, de outras fonte. Enfim, a procura da verdade. Para isso, podemos recorrer a Paulo Freire que nos diz que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Assim, o sentido que cada um tem do que lê depende de sua visão de mundo.  Num mesmo texto lido por pessoas diferentes, cada um lerá à sua maneira, conforme sua "bagagem". Quem só se prende a livros, não lê o mundo. Vê o caminho do autor, o que ele viu nesse caminho, mas é preciso usar os próprios olhos, distinguir o verdadeiro do falso, o bom do mau.
Isso se estende, da mesmíssima forma, a jornais e revistas. As pessoas precisam de verdades e, se leem "verdades" que elas querem, o veículo é adotado como líder.  O que ele disser direciona o pensamento e a ação de seus seguidores. Como no Brasil a grande mídia é um partido de oposição (declaração dos próprios), ocorre a monomania, o pensamento único, que absorve a mente de seus leitores/ouvintes. Afinal, tendemos a assimilar o que "nos interessa" (na verdade é o que interessa ao veículo). Claro, aparecem em pequenas notas de rodapé ou mesmo diluídas nos textos, frases como "Não foram encontradas provas" (depois de "denunciar" com veemência), não percebidas pelos  ávidos seguidores do veículo ou do jornalista. Afora os "Segundo uma fonte anônima...", "Conforme declarou um funcionário que não quis se identificar...", etc. Esses jornalistas exploram o pensamento de que "Quem escreve para palhaços sempre encontra um grande público". Felizmente, a cada pouco, diminui o número dos que caem nessa.
A boa leitura pode despertar em nós qualidades que não sabíamos que tínhamos. Para tê-la, é preciso desenvolver a arte de não ler, que consiste em "nem sequer folhear o que ocupa o grande público. Para ler o bom, uma condição é não ler o ruim,  porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos." (Schopenhauer).
Do GGN

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