sábado, 13 de março de 2021

MENINOS, EU JÁ VI, POR FERNANDO BRITO

Se há algo inverídico que se possa dizer sobre Jair Bolsonaro, é exatamente aquilo de que o chamam: o “Mito”.

O “Mito”, na construção das representações do pensamento humano, é aquele que enfrenta, sofre, é martirizado e, por isso, considerado profético e condutor.

Até a facada de Juiz de Fora, uma narrativa ainda confusa sobre o que foi um ato de um desequilibrado mental, Jair Bolsonaro nada tinha de semelhante a um Mito.

Ainda que, eleitoralmente pudesse sê-lo a partir daí – e não se têm histórias de mitos criados a partir do poder vigente (financeiro, midiático e militar) que se sustente frente à realidade, a prova real do desempenho deste “herói” deu, todos podem ver, com os burros n’água.

O mito vem para criar – ou recriar – uma era de afirmação e esperança.

E nisto Jair esmerou-se em ser um fiasco dos mais rematados.

Dos nossos pesadelos – miséria, pobreza, violência, a abolição da corrupção trazendo fartura e abundância, recessão, desemprego, desamparo – de qual deles nos conseguiu exorcizar?

Ao contrário e é inevitável que, quando vemos as calçadas coalhadas de miseráveis, o medo em todos os rostos, a apreensão em todos os brasileiros, a angústia em toda a gente pobre do Brasil, que nos recordemos que, anos atrás, não era assim.

Sonhava-se a casinha, o carro ainda que “caidinho”, a filha se formando, o forno de microondas, a casa ainda que seria sua, afinal…A vida melhor, ainda que não tanto, mas um pouco mais do que era.

Bolsonaro, como a ditadura, acenou com um “Brasil Novo” e entregou um país mais velho e rabugento.

Natural que, agora, visto que o que se tem é o Brasil sem esperanças, o que a memória popular vá buscar seja o Brasil com que se sonhava e que se entreviu.

A mítica, hoje, aponta mais para Lula que para Jair.

Já vi isso acontecer, muitas vezes ,numa direção ou noutra.

Quando a abertura nos deu a chance de eleger um governador, assisti Leonel Brizola sair do opróbrio de 20 anos, quase, em que se o apontava – como se faz agora a Lula, pela eleição de Bolsonaro – como responsável pela ditadura, para tornar-se o vencedor tsunâmico das eleições no Rio de Janeiro.

Quando Lula, enfraquecido e “maldito” pelas eleições que perdeu em primeiro turno para o Fernando Henrique do “o real é mais forte que o dólar”.

Quando um escroque como Aécio Neves, por muito pouco, deixou de tornar-se presidente.

E, afinal, quando o tosco e bruto ex-capitão não era capaz de provocar o “ele não” no centro e nos liberais de punhos de renda, mais do que a posição de “isentões”, aquela do “uma escolha muito difícil”.

Por tudo isso, e com o perdão pelo uso da palavra que se tornou ofensa, quanto tem um papel tão bonito na história, ouso dizer que “Mito”. agora. é o senhor Luís Inácio Lula da Silva.

Lula é o Getúlio de 1950. É o JK 66. É o Lula 2002.

Paz e amor?

Sim, mas com muito menos ilusões.

É a certeza de que desenvolvimento é necessário, mas não basta.

Creio que sua primeira fala depois de inocentado – sim, ao contrário do que diz a mídia e ao lado do que diz a Constituição : “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória – Lula deixou bem claro que é a preservação do interesse e da soberania nacional e a primazia da justiça social que orientam seu pensamento agora e suas ações futuras.

Lula diz que não guarda rancores e nem planeja vinganças pelo seu martírios.

Não, mas eles lhe removeram as ilusões.

Como o fizeram a Vargas, no governo pós-50.

Se algo tem a ver com “Mito” no que estamos vivendo, positivamente não é Jair Bolsonaro.

Tijolaço.

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