domingo, 14 de março de 2021

PAZUELLO É ASSADO VIVO, MAS BOLSONARO TAMBÉM SE QUEIMA, POR FERNANDO BRITO

Se há algum momento em que Eduardo Pazuello foi claro em sua passagem pelo Ministério da Saúde foi naquele vídeo onde, ao lado de Jair Bolsonaro, resumiu seu papel no cargo: “um manda, o outro obedece”.

Agora, quando o presidente tenta dar a aparência de um “cavalo-de-pau” em sua política negacionista no enfrentamento da pandemia, o obediente general é sangrado em praça pública.

Embora tenha todo o merecimento necessário a isso, a “execução” sem honras do ministro – e perder estes galões o atira, inapelavelmente, ao cadafalso judicial – é só a porta de entrada de uma nova temporada de problemas para Bolsonaro.

A cardiologista Ludhmilla Abrahão Hajjar – que tem o aval público do Centrão – tem, com certeza, bem claro o exemplo do sucessor de Luiz Mandetta, que tentou contemporizar a medicina com a estupidez de Jair Bolsonaro e acabou por deixar o ministério menos de um mês depois de assumir.

Suas afirmações sobre a ineficácia da cloroquina são públicas e fortes e estão expostas na entrevista que deu à Folha de S. Paulo, em abril do ano passado:

Tanto a cloroquina como a azitromicina podem induzir essa arritmia [cardíaca]. A associação das duas torna-se isso ainda mais possível.(…)Eu jamais adotaria hoje a cloroquina na forma leve, de forma preventiva, sem ter evidência cientifica. Eu não mudaria a prática clínica baseada só em experiência. Cloroquina não é vacina. Está sendo vista como salvadora, e não é.

Dificilmente, claro, a possível ministra vá desdizer-se para contemporizar com Bolsonaro, que ainda esta semana recorreu à “prova” empírica do uso da cloroquina nos funcionários do Planalto para reafirmar a crença que ele transformou em milhões de comprimidos que apodrecem nos armazéns do Ministério.

Mas Ludhmilla tem uma pedra no caminho maior que um comprimido de cloroquina: a sua live, gentil e simpática, com a ex-presidenta Dilma Rousseff, que está sendo reproduzida furiosamente nas redes pelos bolsonaristas.

Manda, portanto, a boa prudência que se guarde certo tempo antes de considerar sua escolha definitiva.

Até porque, nesta história de “um manda o outro obedece”, Jair Bolsonaro talvez não queira ficar com o segundo papel.

Ou ele vai sair fazendo “autocrítica” do que diz a sua possível ministra sobre a sua atuação na pandemia?

Tijolaço.

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