domingo, 24 de maio de 2020

O JULGAMENTO PELA HISTÓRIA ESTÁ LOGO ALI, POR FERNANDO BRITO

Estamos a poucas semanas – quem sabe menos que isso – de um ponto de ruptura da crise institucional em que está mergulhado o Brasil de Jair Bolsonaro.
Talvez não seja o único deste processo, mas acontecerá, inapelavelmente.
Bolsonaro só permanecerá no governo pela via de um golpe – cuja profundidade não se pode prever – que será o início da ladeira para a implantação de uma ditadura.
É esta a disposição, agora já nem tão escondida do grupo de generais palacianos, que juga-se no direito de usurpar o comando de fato das Forças Armadas, não se sabe com que grau de anuência dos seus comandantes de direito.
A declaração de Jair Bolsonaro de que tem um “sistema particular de informações”, com ligação direta com as estruturas policiais e militares é um sinal explícito do que já muitos militares sabem: Bolsonaro tem mais apoio na tropa e na baixa oficialidade do que entre os oficiais generais, por mais que entre estes lhe tenham tido simpatia eleitoral.
São eles, porém, o fiel da balança num momento em que a sociedade civil está acoelhada, quarentenada e, sobretudo, desorganizada politicamente depois que o lavajatismo a destruiu e bateu palmas para o atual maluco dançar, pisoteando a eles próprios.
Falta-lhes, entretanto, não só uma liderança política – o general Heleno é um nanogorila evidentemente desqualificado para isso e lhes falta um programa econômico, o que se evidenciou nas falas primárias de Paulo Guedes, nas quais “vender logo essa porra” e abrir hotéis cassinos.
De outro lado, uma solução de “queda” de Bolsonaro também parece não se afigurar como alternativa para este núcleo militar, que se formou sem num ter como um dos centros o general vice-presidente Hamilton Mourão, que o substituiria sem, é claro, apoio político, sem o quisto de apoio popular que remanesce com Bolsonaro e sem, como se observou, liderança militar.
Como isso vai terminar é imaginação além da possível a quem trabalhe com informações que moldem o provável e com imaginação que fuja do implausível, do qual estamos mais perto do que de qualquer solução racional.
Mas quase se pode pegar no ar, de tão sólida, a iminência de uma ruptura, porque chegamos a um ponto do qual não há retorno no confronto entre os poderes da República.
Tanto quando se pode prever que esta ruptura, alguns passos mais à frente terá que se ver com o ator ausente deste ato da peça tragicômica que se encena aqui: as ruas.
O Exército, como ente líder das Forças Armadas, tem de si uma compreensão como instituição permanente, talvez ainda haja, entre as tresloucadas cabeças generais alguma lucidez para entender que a história de pacificação impune com que se saiu da ditadura de 64 dificilmente se reproduzirá na nossa inevitável volta à normalidade democrática.
Logo ali.
Do Tijolaço
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