sábado, 20 de junho de 2020

O XADREZ DA ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA DE BOLSONARO, POR LUIS NASSIF

A semana terminou com a cena humilhante - para Bolsonaro - de enviar três Ministros da área jurídica até a casa de Alexandre de Moraes, em São Paulo, para negociar o armistício.
PEÇA 1 – OS CUIDADOS NA ANÁLISE
Para analisar o cenário atual, é fundamental tentar entender o contexto. Opiniões de parlamentares de oposição ou situação, de militares das Forças Armadas e militares de Bolsonaro, de Ministros do Supremo, só importam se vistas dentro de um contexto maior. São peças cujo funcionamento depende da maneira como a máquina é montada. E o funcionamento da máquina depende dos movimentos da opinião pública, não só a opinião da mídia, mas também das redes sociais, conferindo o devido peso a cada um.
Se a opinião pública que conta – aquela que impacta a cúpula dos poderes – endossa jogadas de impeachment, impeachment haverá. As razões, arrumam-se depois.
Com Fernando Collor foi o Fiat Elba; com Dilma Rousseff, as pedaladas; com Eduardo Cunha o fato de ter escondido contas no exterior. Se não houver motivos sólidos, o Supremo tratará de dar a interpretação necessária, desde que haja o movimento da opinião pública. 
Afinal, no Brasil, os poderes são todos pró-cíclicos, da mídia ao Supremo.
PEÇA 2 – O INQUÉRITO DAS RACHADINHAS DE FLÁVIO BOLSONARO
O inquérito sobre as rachadinhas, do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, é devastador. Já houve casos de parlamentares cassados por recolher parte dos salários de seus assessores. Flávio Bolsonaro foi além: criou assessores laranjas que recebiam sem trabalhar e repassavam a parte do leão para ele.
Há fortes indícios de que Fabrício Queiroz pagava mensalidades das escolas dos filhos de Flávio Bolsonaro, e outras despesas, com dinheiro vivo. Há indícios fortes de lavagem de dinheiro em operações com imóveis e na loja de chocolates.
O inquérito ainda apurou troca de dinheiro entre Queiroz e Adriano da Nóbrega, o miliciano chefe do Escritório do Crime, morto pela Polícia Militar da Bahia. E provas robustas de que o advogado e conselheiro pessoal da família Bolsonaro, Frederick Wassef, escondeu Queiroz em sua casa.
Mais: Bolsonaro saiu em defesa de Queiroz afirmando que seu exílio em Atibaia se devia a tratamento médico. E foi desmentido pelo hospital local, que jamais tratou Queiroz.
Todos esses dados são relevantes para a Justiça, mas muito mais relevantes para a opinião pública. Com Bolsonaro popular, haveria a multiplicação de narrativas inocentando Flávio e minimizando as acusações, com argumentos padrão primário, tipo “fez, mas quem não fez?”.
Mas, depois que o Ministro Alexandre de Moraes colocou o pé na porta e impediu Bolsonaro de continuar blefando com anúncios de endurecimento político, de chamamento ao golpe, abriram-se as comportas do Judiciário. As reações de Bolsonaro, de enfrentamento com bravatas, ameaças vãs, conflitos permanentes, ajudaram a consolidar a convicção dele joga poker e que com par de paus e apenas tenta ganhar tempo para um golpe no futuro.
PEÇA 3 – AS ESTRATÉGIAS PENSADAS PELOS BOLSONARO
Peças isoladas, enviadas pela cobertura de Brasília, indicam as seguintes alternativas de reação de Bolsonaro, pensadas por seu grupo próximo para evitar a cassação da chapa.
ESTRATÉGIA 1: invocar as Forças Armadas
Blefe. Ninguém acredita mais. Desde que Alexandre de Moraes pagou para ver, ficou cada vez mais nítido que o dispositivo militar de Bolsonaro se resume aos militares que levou para o governo – e que hoje amargam a parceria no fracasso sanitário, econômico e político do governo.
ESTRATÉGIA 2 – parar de falar de Queiroz, deixar a bomba explodir no colo do filho e deixar a guerra diária de lado.
É a chamada política de redução de danos, ou de entregar os anéis para poupar os dedos.
Inimaginável em uma mente bruta e primária como Bolsonaro. 
Primeiro, porque, calando-se, perderá a única base que lhe resta: os fanáticos de redes sociais.
Segundo, porque a única estratégia que conhece é a do confronto. Não é capaz de elaborar estratégias políticas, discursos elaborados, gestos expressivos em direção à pacificação. É vítima da síndrome do escorpião.
Terceiro porque, calando ou não, é incapaz de se dissociar da figura de Queiroz e dos milicianos cariocas. Menos ainda de seus filhos.
ESTRATÉGIA 3 – Montar frente com o Centrão
O Centrão é fundamentalmente oportunista. E oportunista que se preze não se prende apenas aos benefícios do presente, mas ao cenário futuro. E o futuro de Bolsonaro depende fundamentalmente dos julgamentos do Tribunal Superior Eleitoral.
Aliando-se ao Centrão, haverá uma desidratação maior do que restou de sua base de apoio, e um aumento das pressões pela cassação.
ESTRATÉGIA 4 – montar um Ministério de notáveis
Na fase final do seu governo, Fernando Collor montou um ministério de notáveis. Até conseguiu bons nomes, especialmente do universo carioca, que ele frequentava há tempos como membro da elite dourada carioca – o pai foi sócio de Roberto Marinho, ele se casou com uma Monteiro Aranha.
Que notável aceitaria trabalhar para um governo que tem à frente Jair Bolsonaro, ainda mais sabendo-se que ele jamais aceitaria o papel de rainha da Inglaterra – aliás, a expressão é indevida para um sujeito de tão má catadura como ele.
PEÇA 4 – A DEBANDADA DAS HOSTES BOLSONARISTAS
Como previmos aqui, a partir do momento que o STF se apresentou como poder moderador, enfrentando Bolsonaro, sua estrutura se desfez como um castelo de cartas.
Aquela tropel de selvagens que invadiram as redes sociais, o parlamento, as ruas, estão refluindo com tal rapidez que surpreende.
Abraham Weintraub, a figura mais caricata do governo, é demitido e nomeado para um trabalho fora do país, ao qual ele adere rapidamente, deixando claro sua pressa em se afastar da rinha e seu medo de ser preso.
Youtuber agressivos expressam, agora, o medo da prisão, como se, só agora, tivessem despertado da viagem lisérgica a que foram levados por Bolsonaro, para um mundo no qual todos os abusos eram permitidos. Voltaram a ser os provocadores de rua, que saem correndo assim que aparece a polícia.
Os financiadores se recolheram, a ponto de evitarem até a ajuda ao seu guru maior, Olavo de Carvalho.
O círculo próximo a Flávio Bolsonaro tenta arrumar outro advogado, sabendo que Wassef também poderá ser preso.
A semana terminou com a cena humilhante – para Bolsonaro – de enviar três Ministros da área jurídica até a casa de Alexandre de Moraes, em São Paulo, para negociar o armistício.
Desapareceu a arrogância ignorante dos filhos. Eduardo, para quem bastaria um sargento e um cabo para fechar o STF, apareceu em uma live como se fosse um pobre defensor da democracia (dele), perseguido pelos poderes.
Não se lê mais as mensagens de Carlos Bolsonaro, o copydesk do pai, nem de Flávio, o representante comercial da família.
A grande aposta é sobre qual filho será o primeiro a ser preso.
Nesse quadro, torna-se mais premente do que nunca as forças democráticas começarem a discutir a transição, sabendo-se que, no Brasil, inclinações democráticas, responsabilidade social, solidariedade com os oprimidos – como expressos hoje pela maioria da mídia – não são valores consolidados, mas meros modismos, que podem se desfazer ao primeiro vento contrário.
Do GGN
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