terça-feira, 4 de agosto de 2020

FAZER QUEIROZ “ASSINAR” RACHADINHA É PLANO QUE NÃO CONVENCE, POR FERNANDO BRITO

Nos presídios, quando um grupo criminoso resolve “apagar” algum detento que violou as regras da “irmandade”, é comum que se escolha alguém, já com muitas condenações e nenhuma esperança de liberdade, para “assinar o 121”, referência ao crime de homicídio do dito cujo.
Parece que esta foi a tática definida para Fabrício Queiroz assumir, sozinho, a responsabilidade da “rachadinha” do gabinete do então deputado estadual e agora senador Flávio Bolsonaro na Assembléia Legisltativa.
Se foi, é preciso que se conte com muita hipocrisia para que tenha o mínimo de veracidade para que alguém se convença disso.
Vejam o que diz o amigo da família há décadas, sob o juramento de testemunha:
Eu tive um contato com o senador — ele não era senador, era deputado, mas já estava eleito. Eu dei satisfação a ele do que aconteceu. Ele estava muito chateado, revoltado. Ele falou: ‘Não acredito que tu tenha feito isso, não acredito’.
Todos se recordam que Flávio, nesta época, deu uma versão do encontro que em que não parece em nada “revoltado” com o ex-assessor:
– Hoje o Fabrício Queiroz veio conversar comigo. Fui cobrar esclarecimentos dele sobre o que estava acontecendo. Ele me relatou uma história bastante plausível. Me garantiu que não teria nenhuma ilegalidade nas suas movimentações – disse ao sair da casa do presidente eleito, Jair Bolsonaro, no Rio.
Logo em seguida, apareceu a história que, segundo o filho presidencial, seria “bastante plausível”: que a dinheirama que circulava pela conta de Queiroz se devia a “rolos” que ele faria com a compra e venda de automóveis.
O relato desfia um rosário de contradições:
  • Por que Queiroz depositava dinheiro na conta da mulher de Flávio, na conta de Michele Bolsonaro e o usava para pagar mensalidades escolares e plano de saúde da família do chefe?
  • Por que, se pretendia ir para Brasília, com Flávio ou com Jair, foi afastado – bem como sua filha, que era do gabinete do futuro presidente, no dia 15 de outubro, se não houve o tal “vazamento” de que estava na mira do Ministério Público?
  • Por que, se estavam “revoltados” com ele, recebeu auxílio do advogado de Flávio (e de Jair) Frederick Wassef para ocultar-se em Atibaia?
  • De onde vieram os recursos em espécie para pagar um valor altíssimo de seu tratamento no Hospital Albert Einstein se ele não movimentou contas bancárias e não usou “rachadinhas” em proveito próprio?
E mais: como é que Flávio, se tratando de Queiroz, um amigo de décadas de seu pai – alguém íntimo a ponto de pedir-lhe “um empréstimo de R$ 40 mil – como é que não deu ciência ao então presidente eleito da gravíssima irregularidade que o havia “revoltado” ao ser narrada a ele não deu ciência disso a Jair Bolsonaro?
Queiroz pode tentar “assinar” o crime, mas as evidências mostram que ele não agiu por conta e proveito próprios.
Não vai funcionar e acaba por complicar Flávio e Jair que, no mínimo, sabiam de tudo e mentiram fingindo que nada conheciam do caso.
Do Tijolaço
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