domingo, 12 de julho de 2020

XADREZ DA ORGANIZAÇÃO QUE ESTÁ POR TRÁS DA ESTRATÉGIA DO FACEBOOK CONTRA OS FAKENEWS, POR LUIS NASSIF

No dia 24 de novembro de 2016, The Washington Post publicou uma reportagem de capa sobre a interferência russa na eleição de Donald Trump. Essa reportagem deflagrou a campanha mundial contra o fake news, apontado a partir de então, com evidente exagero, como a maior ameaça à democracia. E, provavelmente, foi o maior fake news das últimas décadas.
PEÇA 1 – O GOVERNO TEMER E OS EUA
As notícias de que a Apex (Agência Brasileira de Promoção das Exportações) rompeu contrato com a Atlantic Council – por ver seu braço nas recentes decisões do Facebook em bloquear as contas ligadas aos Bolsonaro – jogo foco sobre um escritório de lobby que teve papel central nas articulações entre Lava Jato e o Departamento de Estado norte-americano. E lança mais um pouco de luz sobre as relações do governo Temer com a contraparte americana.
Mal consumado o impeachment, alguns movimentos significativos do grupo de Temer – constituído por Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Eliseu Padilha, José Serra e Aloysio Nunes, entre outros.
Aloysio foi enviado a Washington, Reuniu-se com o presidente e um membro do Comitê de Relações Internacionais do Senado, Bob Corker (republicano, do estado do Tennessee) e Ben Cardin (democrata, do estado de Maryland), e com o Subsecretário de Estado e ex-Embaixador no Brasil, Thomas Shannon.
Compareceu também a um almoço promovido por uma empresa de lobby, a Albright Stonebridge Group, comandada pela ex-Secretária de Estado de Clinton, Madeleine Albright e pelo ex-Secretário de Comércio de Bush e ex-diretor-executivo da empresa Kellogg, Carlos Gutierrez.
Por seu lado, à medida em que se aproximava o afastamento de Dilma Rousseff, Serra empreendeu uma corrida para se tornar padrinho da mudança na Lei da Partilha – o butim mais cobiçado pelos políticos. Ele, de um lado, Eduardo Cunha do outro, acelerando a aprovação.
José Serra apresenta PSL 4567/2016 no dia 25.02.2016. Senado aprova nova lei do pré-sal em 24.02.2016, do Senador José Serra, para tramitar em regime de urgência. Dia 12.05.2016, Senado aprova início do processo de impeachment. E aí entra o fator Atlantic Council.
PEÇA 2 – O ACORDO COM O ATLANTIC COUNCIL
Atlantic Council é um centro de lobby nos Estados Unidos, cuja maior especialização é fazer o meio campo entre executivos de empresas, potentados de países com problemas de imagem, com funcionários públicos, especialmente do Departamento de Justiça e do Departamento de Estado.
Clicando aqui, você vai a uma reportagem do The New York Times sobre o uso abusivo pelos think tanks de um falso conhecimento técnico para impor aos governos decisões de interesse de seus contratantes. E um trecho especial sobre as jogadas do Atlantic Council.
Assim que explodiu a Lava Jato, o Atlantic Council se tornou uma das vitrines de juízes e procuradores junto ao público corporativo norte-americano, exibindo-os como troféus. Nomeou o ex-Procurador Geral da República Rodrigo Janot como conselheiro, em um caso clássico de fake reputation,  e promoveu encontros com membros do Departamento de Justiça, no qual um deles, Kenneth Blanco, narrou a maneira como o DoJ (o Departamento de Justiça) articulou-se informalmente com o grupo de Curitiba para preparar a Lava Jato.
Agora, pelas revelações dos últimos dias, o governo Temer tratou de cooptar o apoio da instituição, com esse contrato assinado pela Apex.
PEÇA 3 – A SEGURANÇA INTERNACIONAL E OS “ATORES MALIGNOS”
Harlam Ulmann é um pensador da área de defesa que, desde os atentados às Torres Gêmeas, passou a desenvolver um novo tipo de doutrina da segurança, fundada nos seguintes valores.
A revolução da informação e das comunicações globais instantâneas estão frustrando a nova ordem mundial”
Apenas um outro cataclismo como o 11/9 permitirá que o estado possa reafirmar o seu domínio e a eliminação de agentes não estatais e indivíduos capacitados, a fim de preservar a nova ordem mundial.
A definição de uma “nova ordem mundial” deve ser a de uma tecnocracia mundial gerida por uma fusão do grande governo e o grande negócio em que a individualidade seja substituída por uma singularidade trans-humanista.
Não são as superpotências militares, como a China, mas “atores não estatais”, como Edward Snowden, Bradley Manning e hackers anônimos, que representam a maior ameaça para o Westphalian System, porque eles estão incentivando as pessoas a se tornarem autocapacitadas e eviscerar o controle do Estado.
Com base nos estudos de Ulmann,  o principal produto que o Atlantic Council passou a vender foi a grande batalha da globalização através das redes sociais. E a preparar estratégias que livrassem seus clientes das denúncias que escapavam ao controle dos grupos de mídia
Mas como impedir o acesso à rede daqueles que o Atlantic Council denomina de “atores malignos”, disputando a narrativa com o sistema, confrontando a ideologia da globalização? Como domar as redes sociais, se a universalização do acesso está no cerne do seu modelo de negócio?
A maneira como o Atlantic Council conseguiu dobrar o gigante Facebook é um caso que ainda será contado, um dia, como um clássico do uso dos fake news, o 11 de novembro das redes sociais, preconizado pelo guru Ullman.
Aqui, você tem a matéria que o GGN publicou há anos, contando essa história.
PEÇA 4 – O JOGO COM O FACEBOOK
Conforme relatamos em 18 de junho de 2018. No dia 24 de novembro de 2016, The Washington Post publicou uma reportagem de capa sobre a interferência russa na eleição de Donald Trump. Essa reportagem deflagrou a campanha mundial contra o fake news, apontado a partir de então, com evidente exagero, como a maior ameaça à democracia. E, provavelmente, foi o maior fake news das últimas décadas.
A reportagem se baseava em um site obscuro, o PropOrNot, cujos autores eram anônimos. O grupo divulgou um relatório de 32 páginas detalhando a metodologia, e delatando cerca de duzentos meios de comunicação suspeitos de publicar propaganda russa para torpedear a campanha de Hillary Clinton. E justificava o anonimato pelo receio de ser atacado pelos hackers russos.
Era uma reportagem fantasiosa que não foi levada a sério por nenhum jornal. Por alguma razão, o The Washington Post, comprou a versão, Adrian Chen, do respeitado The New Yorker, informou que havia sido contatado pela organização mas não embarcou na história.
 “Um olhar mais atento no relatório mostrou que estava uma bagunça. “Para ser honesto, parece uma tentativa muito amadora”, disse-me Eliot Higgins, um pesquisador respeitado que investigou notícias falsas da Rússia em seu site, Bellingcat, durante anos. “Eu acho que nunca deveria ter sido publicado em qualquer site de notícias de qualquer nota.”
O Washington Post foi obrigado a se retratar. Na cabeça de reportagem online publicou numa Nota do Editor dizendo não garantir a validade das conclusões do PorpOrNot. Nem tinha condições de avaliar se a campanha russa havia sido decisiva para eleger Trump.
Um deles se valeu de análise linguística. Concluiu que o autor anônimo era Michael Weiss, editor sênior do The Daily Beast , colunista de Política Externa e colaborador frequente em segurança nacional da CNN . Ele também é editor-chefe do The Interpreter , membro sênior não-residente do Atlantic Council e co-presidente do Russia Studies Center da Henry Jackson Society.
Outro pesquisador se valeu de uma ferramenta de teste, que permite a varredura de vulnerabilidades em sites.  Mostrou que o painel de administração pertencia a www.interpretermag.com,  site financiado pelo Atlantic Council.
A divulgação das matérias colocou Mark Zuckerberg de joelhos ante o Congresso americano. Fio intimado a comparecer a uma audiência onde foi jogado contra a parede. Sua reação imediata foi contratar o Atlantic Council para assessorá-lo.
O caminho, segundo o Atlantic Council, seria estabelecer “parcerias com organizações de checagem de fatos, reprimindo propagandas de sites não confiáveis, modificando seus algoritmos”. Mas apenas isso, mas essas organizações “lançando seus próprios projetos de suporte de mídia”. Espalha-se, aí, o fenômeno das agências de checagem.
E paro por aqui, sem maiores informações ou deduções sobre a ofensiva do Facebook contra a rede de ódio dos Bolsonaro.
Do GGN
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