segunda-feira, 3 de maio de 2021

GUEDES, UM MINISTRO À DERIVA E A CPI DO FIM DO MUNDO, POR LUIS NASSIF

Seu mérito maior era o de vendedor, o de convencer investidores - e fundos de pensão públicos - a investir em projetos com promessas que dificilmente se realizavam.

A entrevista de Paulo Guedes a O Globo é a comprovação factual da perda de rumo do Ministro da Economia, em plena eclosão da crise.

Guedes perdeu contato com a realidade. A entrevista é um amontoado de fake news, atropelando números conhecidos.

Alguns exemplos de fakenews, já descritos em coluna de ontem:

       1. “Peguei uma inflação alta e entregarei uma inflação mais baixa”.

Em janeiro de 2019, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado) anual do IBGE estava em 3,78%. Atualmente, está em 6,10%. O IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) da Fundação Getúlio Vargas, foi de 7,54% em 2018. Em 2020 foi de 23,14%¨. Este ano, até abril acumula variação de 9,89%;

2. Peguei o país crescendo 1% e o entregarei crescendo 3%”.

O PIB de 2018 foi de 1,12%. O de 2020, -4,1%.2.

3. “Peguei o país com 12 milhões de desempregados e o entregarei com 10”.

O desemprego estava em 12,4% em dezembro de 2018. E em 14,4% em fevereiro de 2021.

4. “É uma oportunidade. Ele é a vítima da nossa legislação trabalhista. Quando você bota lá o salário mínimo, um rapaz filho de uma classe média, que estudou em uma boa universidade, fala duas línguas, ele consegue emprego com salário mínimo.”.

A maior inovação teórica das últimas décadas: o salário mínimo se transformou em salário máximo. E destruição do emprego formal aumenta salários.

5. A segunda medida, estamos chamando de Bônus de Inclusão Produtiva (BIP). Da mesma forma que se dá R$ 200 para uma pessoa que está inabilitada receber o Bolsa Família, por que não poderia dar R$ 200 ou R$ 300 para um jovem nem-nem? Ele nem é estudante nem tem emprego. Ou seja, é um dos invisíveis. Agora, esse jovem vai ter que bater ponto e vai ser treinado para o mercado de trabalho.

Esse programa existe no papel há mais de década.

6. “O maior exemplo de compromisso com a saúde é que eu falei que tem que criar voucher. Acho natural que, com as novas tecnologias, as pessoas queiram viver 100 anos. O grande desafio é como ajudaremos nesse sentido as camadas mais frágeis. Por que um sujeito rico se interna no (hospital) Albert Einstein e o pobre tem que ficar numa fila do SUS durante dez dias? Se o pobre tiver um voucher e não tiver vaga no SUS, ele vai na rede privada. São soluções privadas efetivas para problemas públicos gravíssimos”.

O dia em que um voucher permitir a um pobre se internar no Albert Einstein, nem todo o orçamento do país cobrirá os gastos com saúde. Guedes é mentiroso compulsivo, porque sabe disso. A vantagem do SUS é a universalização a um custo baixo.

A entrevista é relevante pelo lado oposto, ao expor um Ministro que perdeu totalmente pé da realidade. No mercado, Guedes ficou conhecido por algumas características.

Uma delas, a incapacidade de comandar equipes maiores. Perdia-se no comando de grupos pequenos de operadores, trabalhando em cima de um mesmo universo de informações.

O segundo, a dificuldade em analisar comportamento de ativos. Era conhecido por ser um perdedor.

Seu mérito maior era o de vendedor, o de convencer investidores – e fundos de pensão públicos – a investir em projetos com promessas que dificilmente se realizavam.

No governo, as pirações de Jair Bolsonaro colocaram sob o comando de Guedes vários ministérios reunidos em um único super-ministério. Ministério fundamentais, como o do Planejamento, Indústria e Comércio. Sem a menor visão de conjunto da economia, Guedes permitiu que o câmbio explodisse, os produtos comercializáveis inflassem a inflação interna, a falta de limites para as exportações criasse gargalos em inúmeras cadeias produtivas. Sua resistência em melhorar a renda emergencial ajudaram a aprofundar não apenas a crise social, a fome, mas a derrubar ainda mais a economia.

A falta de filtros nas declarações e um individualismo exacerbado comprometeram irremediavelmente as relações com o Congresso, submetendo o orçamento a uma carnificina.

Essa desmoralização final de Paulo Guedes ocorre ao mesmo tempo em que a CPI da Covid-19 promete ir a fundo para identificar responsáveis pela morte de mais de 400 mil brasileiros. Trata-se da CPI mais óbvia já proposta, pois sabe-se, com abundância de provas em áudios e vídeos, da responsabilidade central de Bolsonaro. O trabalho da CPI será apenas a de sistematizar provas já existentes.

Acuado, Bolsonaro recorrerá a alguns movimentos óbvios.

O primeiro deles, já em andamento, consiste em radicalizar a truculência das suas milícias, policiais civis e militares da base. Aparentemente, perdeu a condição de um golpe com as Forças Armadas. Na outra ponta, acenará com promessas não críveis de retomar as tais reformas. Ao mesmo tempo, Lula já começou sua maratona de engajamento de políticos e empresários na grande frente que está sendo montada visando as eleições de 2022.

Há um conjunto de possibilidades pela frente:

1. Com Bolsonaro se habilitando às eleições de 2022, Lula será o líder inconteste da frente ampla contra a barbárie.

2. Se houver um enfraquecimento substancial de Bolsonaro, a mídia retomará os ataques contra Lula, ressuscitando o anti-petismo. É por aí que vem a aposta de Ciro Gomes um sujeito – como se diz em Minas Gerais – sabido, porém não esperto.

3. Não descarte a possibilidade dos militares atraídos por Bolsonaro tentarem viabilizar o vice-presidente Hamilton Mourão, com escassas possibilidades de sucesso.

GGN.

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